Domingo, 11 de Maio de 2008

"Kuss der Mutter"

 

 

Hoje é o Dia da Mãe na Alemanha, por isso, Teresa Hoffbauer propôs-se traduzir o texto Beijo de Mãe e colocá-lo no seu blog. Mil vezes obrigado à excelente tradutora, mil vezes obrigado por esta oportunidade de ler pela primeira vez um texto meu noutra língua!

Aqui fica apenas o primeiro parágrafo, para abrir o apetite aos que percebem alemão:

 

Nach allem, all den Jahren und allen Schicksalschlägen, bewahrte er noch die Schachtel. Andenken und harmloser Raum, einfach fest in der Zeit. Weit über siebzig Jahre sind vergangen. Die Zeit hatte auf ihn die Wirkung wie steter Tropfen Wasser auf einen Fels ausgeübt - aber er hatte nicht die Durchlässigkeit des harten Steines.

Publicado por Afonso Reis Cabral às 12:07
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Beijo de Mãe

Porque hoje é o dia da mãe, aqui vai um texto meu que foi anteriormente publicado no suplemento literário do jornal O Primeiro de Janeiro e também neste blog:


    Depois de tudo, de todos os anos e de todas as vicissitudes da vida, ainda conservava a caixa, memória e espaço inócuo, estática simplesmente no tempo. Setenta e muitos anos haviam já passado! O tempo tinha exercido sobre ele o efeito que faz uma gota de água repetidamente numa rocha – e ele não tinha a porosidade dura da pedra…
    Pois os lustros foram passando, lentamente, e, com o decorrer do tempo, cada vez mais alheio, a vida continuou. Mais algum pouco que meio século e o momento era exacto: sobrara apenas, e já muito, a caixa com o ás de copas gravado no metal da tampa. Mais que envelhecido, apodrecido, mas tendo em si a nostalgia da vida, pegava, trémulo, na caixa selada por fita-cola preta.
    A sua mulher, vaga memória, permanecia sempre nos seus gestos como parte de si, mas desapercebida. Os filhos, todos marcados pela morte, estavam enterrados no fundo da sua alma. Não estavam mortos para ele, mas sim adormecidos nos confins da eternidade.

    Um dia pedira a sua mãe afincadamente que lhe desse um beijo no tempo. A mãe, surpreendida, dera-lhe um beijo na testa, um beijo no presente. Não, não! Queria um beijo daqui a muitos anos, quando a sua mãe já não lho pudesse fisicamente dar.
    - Mãe, dá-me um beijo no tempo, daqui a muitos anos! Mãe, dás?
    Um dia depois, lá se decidiu e deu um beijo no filho do futuro, fechando a caixa logo de seguida para que este não se perdesse no ar, no tempo do presente.
     Era assim que o seu filho desejava.

     Esse beijo na caixa fora dado com a mesma convicção com que todos os dias, antes de o filho adormecer, visitava o seu leito e lhe marcava a testa com esse cunho do amor. Ele, envolto em lençóis, dormia toda a noite com a presença da mãe na testa, embalando-o como se ele ainda fosse um bebé.

    Os anos trataram de fazer com que a mãe não pudesse fisicamente dar mais nenhum beijo. Ele, por sua vez, dera muitos beijos aos seus filhos, embalando-os, porventura, como se eles fossem ainda bebés, mas nunca com a mesma verdade de amor com que sua mãe lhe dava, há já muito tempo, beijos no leito.

    Nesse dia estava sozinho, e já parco de vida, esperando a morte. Era de noite e só uma lâmpada luzia em toda a casa, envolta numa camada de pó. O filho, que já fora pai e marido e que, agora, não era nada, sentou-se na cama e tirou vagarosamente os chinelos, alinhando-os. Depois, enrolando-se, deitou-se em lençóis, como se fosse um bebé. A caixa lá estava. Com as suas mãos finas, onde se viam todas as veias, raspou a fita-cola preta para a arrancar com lentidão. Recebeu o beijo de sua mãe.

    No dia seguinte, quando a empregada entrou no quarto, encontrou-o morto ao lado de uma caixa aberta, mas com um sorriso de quem está só a dormir, embalado pelo beijo de sua mãe. 

             
Publicado por Afonso Reis Cabral às 08:34
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Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Aquilino no Panteão

Chego tarde ao debate, mas com gosto. Agora que o facto está exumado e aconchegado num Panteão entre os grandes, como por exemplo Amália Rodrigues, não há nada a fazer. Aliás, já não há nada a fazer pelo Panteão, no que diz respeito à credibilidade.
Pouco me interessa se Aquilino esteve ou não envolvido na conspiração que levou ao regicídio, interessa-me sim a sua qualidade literária.
Quanto a isso, meus fidalgos, permitam-me dizer com todo o respeito, e sem saricoté, que aquilo acrescenta sensaboria à porca da vida. Lembra-me uma prima velha que tenho e que diz não querer largar os seus ossos no Brasil, coitadita, que não gosta daquelas bandas. Lembra-me um enterro c’as comadres a pregar as malandragens do defunto por entre recitais de ave-marias até que bonda. Lembra-me nomes como Arcangélica, Aruspina, Chichorro, Diamantino, Brízida, Agostinho ou Miguelão da Cabeça da Ponte. Lembra-me tédio de morte. Lembra-me Ai, Jesuses! com entoações várias, cada uma mais de povo. Lembra-me histórias de faca e alguidar, mas a faca é cutelo e o alguidar escudela de barro. Lembra-me que ninguém o lê, e ainda bem.
Aquilino, como diria Almada Negreiros, mas referindo-se a Dantas, “EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!”
Fidalgos, expliquem-me Vossorias porque o foram acoitar dentro do Panteão, que eu não alcanço! Bastava-me o atestado de sensaboria dado pelo Dr. António de Oliveira Salazar, que pelo que entendo gostava muito daquelas prosas aquilinas, para não se instalar o ilustre senhor no Panteão! Bastava-me ler o parágrafo em baixo transcrito para o deixar descansado no seu canto, que já zombaram no Panteão por demais!…

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra – eu cá nunca me avistei com ele – mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

in O Malhadinhas
Publicado por Afonso Reis Cabral às 14:59
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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
in A subject of scandal and concern

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