Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Pela alma do Bolhão


É inegável que o Bolhão precisa com urgência de obras de restauro. No entanto, se a princípio aceitei reticentemente a propaganda de Rui Rio, agora posso sem sombra de dúvidas temer pelo verdadeiro Bolhão. Restaurar é uma coisa, reconstruir e descaracterizar é outra.
O projecto da holandesa TCN manterá apenas a fachada, transformando o interior num espaço que tolera a custo umas quantas bancas de comércio tradicional. Serão construídas habitações, “lojas-âncora”, cafés, restaurantes, bares, atracções nocturnas, etc. Em suma, um centro comercial numa zona onde já existem outros dois. Esta metamorfose assassina o Mercado do Bolhão castiço, com os seus pregões e vendedeiras, peixe fresco e galinhas atadas pelas patas.
Tem-se verificado um movimento civil forte pela alma do Bolhão, que tem mobilizado portuenses e não portuenses. Hoje mesmo foram entregues 50 mil assinaturas na Assembleia da República. Será que vamos conseguir travar a marcha de descaracterização? Espero que sim!

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Publicado por Afonso Reis Cabral às 20:40
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Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Bolhão

O Bolhão, para quem não saiba, é um mercado típico do Porto. Está em vias de ruir, diz-se, mas aguenta-se bem apoiado aos andaimes que lhe fazem de muletas. Está um velho, o Bolhão! Um velho cheio de encantos que a maioria prefere evitar, trocando-o pelos novos, higiénicos e estéreis centros comerciais.
As manhãs de sábado são o dia ideal para o visitar, quando o nevoeiro da cidade se escoa por entre edifícios também eles velhos, apoiados uns aos outros. Mano-a-mano para a eternidade: será que se ouve o murmúrio das suas conversas, o que viram ou ouviram com o passar dos séculos?...
Ao entrar no mercado, um bafo fresco a frutas enlaça-nos para não nos deixar fugir mais. Bancas e casotas dispostas em ordem na desordem de frutas e flores, feijões, nozes, pinhões… Avelã, por si só, como palavra, tem um gosto muito próprio! O voo rasante de uma pomba perturba a tranquilidade do gindungo domado pela ramada e um cacarejar aflito de galinha ritma a marcha ininterrupta que uma codorniz faz à volta da gaiola. Quando as aves tinham gripe (não sei se ainda têm, já que a agenda mediática avançou em frente), as mulheres que me conhecem desde pequeno e que vendem quase tudo desde galinhas paduanas até ovos galados de ganso, passando por ratos-chinos, foram obrigadas a sair. Como sempre, ridículos na nossa histeria, decidimos ser mais papistas do que o papa. As vendedoras foram expulsas mas acabaram por voltar. Voltam sempre: cinquenta anos de trabalho no mesmo sítio falam mais alto.
O peixe é também um ex libris. Uns ainda abrem e fecham a boca, outros limitam-se a estarem mortos com a beleza de quem parece estar vivo. Um sangue muito autêntico escorre em riachos, tendo por jangadas as escamas que brilham ao sol.
Nada substitui esta autenticidade.
As vendedoras, essas, adicionam encanto ao encantamento. Novas ou velhas, filhas ou mães, todas ganham a manha do Bolhão. Genuinamente portuenses, lançam uns “Ó, môr!” de mão na anca, quase dançando com o cliente. Piropos saem de graça, e são sempre fartos, o cliente acaba sempre por se distrair e, sem saber como, leva mais um quilito disto ou daquilo.
O Bolhão é um dos típicos mercados portuenses que, como o nevoeiro, acabará por se diluir. Quando tudo isto acabar, que remédio temos senão ir às grandes superfícies? Lá, os legumes não suscitam prosa nem poesia. Cesário Verde nunca escreveria estes versos sobre a esterilidade dum Continente ou Pingo Doce:

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário – que infantil chilrada! –
Lidam ménages entre as gelosias
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraçada alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras-carneiras.


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Publicado por Afonso Reis Cabral às 22:31
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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
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