Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

O meu irmão Martim

O meu irmão Martim nasceu no dia 22 de Julho de 1991, pouco mais de um ano depois de mim. As poucas lembranças que tenho dele mais novo são como uma fotografia monocromática gravada directamente na minha consciência. Por exemplo, quando ele ainda gatinhava eu punha-me ao seu lado e gatinhava com ele e formavamos os dois uma manada, na verdadeira acessão da palavra (manada, junção de dois ou mais irmãos). Depois, mais tarde, quando eu ia com a minha mãe buscá-lo ao infantário do Carvalhido e ele a descer umas escadas arrastando a mochila. E muitas mais lembranças ou memórias possíveis mas não passíveis de serem descritas…
O meu irmão tem gestos simples de puro amor que faz com a maior das naturalidades, gestos que não precisam de palavras. Ou então, depois de uma birra, aproxima-se furtivamente e com um gesto terno diz «Culpa…!». É a dupla aceitação do erro, culpa culpa… desculpa. (Eu já conheço todas as palavras com que ele vive o mundo.)
Ou então quando se ri, de uma maneira ao mesmo tempo pura e brincalhona, ou então quando acorda de manhã e é todo mole e segue a minha mãe para todo o lado depois de comer o seu iogurte. O Martim adora pão e iogurte e perde-se noutros mundos e noutras vidas vendo televisão e desenhos animados (quase colado à televisão). Vibra com futebol e acompanha a minha irmã nos gostos musicais, muito diversos dos meus.
Insiste, por teimosia, em subir as escadas por etapas: pé direito, depois o esquerdo no mesmo degrau. Pausa. Pé direito, depois o esquerdo… Anda mais rápido, Martim! Pé direito, um degrau, pé esquerdo outro degrau. Quando desce as escadas em direcção à carrinha para ir para o colégio, como não tem ninguém que o incomode: pé direito, depois o esquerdo no mesmo degrau. Pausa. Pé direito, depois o esquerdo…
Por vezes é muito teimoso e embora perceba perfeitamente o que se está a dizer, divaga propositadamente para os seus assuntos favoritos e então uma ladainha desenfreada sobre tudo e sobre nada é proferida com o maior encanto do mundo.
Umas vezes quando volta do colégio vem todo irritado, outras falador, outras macambúzio, outras indiferente, outras gracejando, outras saltitando. Vem sempre feliz.
Tem uma rotina muito certa, o meu irmão Martim. Colégio, pão, televisão, banho, jantar, cama. No meio disto tudo decide chatear-me um pouco, mas enfim…
E, depois, quando se deita, antes mesmo de fechar os olhos e de cair nos braços de Morfeu, diz, abafado pelos lençóis: «Bo noite, mano!» Boa noite Martim. (Irrita-se imenso quando eu oiço música ao mesmo tempo que leio.)
E então, já a dormir, irremediavelmente destapa os pés.

No entanto, eu já tive mais direitos que o meu irmão Martim. Há apenas quinze anos atrás as nossas vidas poderiam nunca se ter encontrado e o meu irmão poderia estar morto.
Com que direito teve o meu irmão menos direitos que eu? Com que direito o Estado definiu que o meu irmão poderia ter sido morto mesmo antes de nascer e eu não? Porque é que eu tinha o direito à vida e o Martim não?
Com que direito é que o meu irmão Martim, por ter o Sindroma de Down, poderia ter sido morto? Com que direito é que a lei diz que se podem matar bebés deficientes ainda não nascidos até aos 6 meses de gestação?
E se tivessem tocado a campainha ao meu irmão Martim?
Publicado por Afonso Reis Cabral às 21:06
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11 comentários:
De Anónimo a 15 de Janeiro de 2007 às 20:07
Olá Afonso,
Como eu o compreendo! O seu irmão Martim, tal como o meu filho de 11 anos, pertencem aquele grupo de pessoas completamente desprovidas de maldade e que só se querem sentir-se amadas. Pessoas doces, afáveis, merecedoras do maior respeito, apoio, motivação e compreensão. No entanto ainda muito excluídos pela nossa sociedade e aparte de toda a lei existente em termos educativos, lamentavelmente se verica, que muito se fala e pouco se faz.
Existem coincidências.E não é que nos comentários existentes a esta sua bonita e sentida história de Amor por Alguém diferente, encontrei um verdadeiro contrasenso?
Como é que alguem que afirma que quando eles chegam todo o amor é pouco e despois, na sua qualidade de professora, se confere o direito de lhes dar bofetadas e puxões de orelhas?!?
Pois acredite que aconteceu e exactamente com o meu Filho!
Incrivel o que tenta transparecer e mais incrivel ainda, o que na realidade se é!
Por todo o meu maior respeito e carinho por todos aqueles que como o Martim e o meu Filho são, aqui fica a minha nota.
Desculpe não identificar o meu Filho, mas, tal como sabe, quanto maior a falta de maldade, maior a vulnerabilidade e, se eu não o proteger, quem o fará?
De JoseMariaRRA a 10 de Janeiro de 2007 às 16:49
És um génio, Afonso! Brilhante!
De Catarina Figueiredo a 27 de Dezembro de 2006 às 12:23
A minha mãe deu-me este blog, pq no outro dia...por simples acaso encontrou-te na rua Santa Catarina a pedir assinaturas contra o aborto...lembras? Sei de tudo q falas e por mais q digam q percebem, so quem vive...acredita q tudo o que dizes é tudo q sinto e que a cada dia vejo...são de facto pessoas maravilhosas, talvez...atrevo-me a dizer...melhores q nós! Só é pena q quase ninguem o perceba...
Só para dizer q tens toda a razão do mundo, e que eu sou uma das muitas pessoas q me orgulho de ti...mm sem te conhecer! És incrivel e tens um irmão lindo =)

Beijinho*
De Afonso Reis Cabral a 15 de Novembro de 2006 às 23:09
Cara Idalina Jorge:

Muito obrigado pelo seu comentário e pela disponibilidade porque sei o quanto por vezes pode ser difícil estar alerta e, para mais, escrever um comentário. No entanto, a fotografia do meu irmão surgiu dentro de um contexto (o da actual lei prever a possibilidade de se matar bebés com deficiências congénitas até aos seis meses de gestação) e não como imagem separada do texto que a precede. Agradeço uma vez mais a sua visita, continue a ler os nossos textos e a comentar, pois isso é realmente um incentivo.
De Idalina Jorge a 15 de Novembro de 2006 às 19:01
Posso usar a fotografia do seu irmão Martim no meu blogue? A pessoas lindas como o Martim já dediquei dois posts: Meeting X e João e Idalina.Os pais do João até já me autorizaram a colocar uma fotografia de nós dois. Um problema de USB's está a complicar o acrescento. Numa coisa estou de acordo consigo: quando eles chegam, todo o amor é pouco.
De luisa cs a 15 de Novembro de 2006 às 16:01
Excelente testemunho com grande força persuasiva. Porque não publicar em jornal???
luisacs
De Anónimo a 15 de Novembro de 2006 às 10:12
Simplemente genial!
De António Sousa Leite a 3 de Novembro de 2006 às 14:47
afinal o homem não é um ser em evolução. há mais de 2000 anos em esparta "deitavam fora" os deficientes. pois agora não só os matam sem lhes deixar ver a luz do dia (já pior que esparta), por pouco tempo que seja, como também deitam fora os outros. crianças são incovenientes e dão trabalho. não interessa se o mundo fica deserto: isto simboliza o egoísmo cada vez mais assente no mundo de hoje em dia.
De Ben Hur a 3 de Novembro de 2006 às 13:45
Com que direito?
Com o mesmo que Hitler e os nazis criminosos mataram todos os deficientes.
Com que direito Afonso?
Com o mesmo que já está a ser forjado para se matarem os velhos incómodos.
De alexandra azevedo a 3 de Novembro de 2006 às 09:18
Tão bom descobrir que navegar na Internet pode ser uma aventura sensível e rica!!!

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