Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

No rescaldo do terramoto

Em 1755, Marquês de Pombal proferiu aquela célebre frase (É preciso sepultar os mortos e cuidar dos vivos.) que antecedeu a reconstrução da cidade de Lisboa. Não sobrou pedra sobre pedra, bairros inteiros que ardiam foram depois apagados pelas não menos mortíferas águas do maremoto. Caos.
Sentiu-se hoje de manhã em Portugal um tremor de terra de 5,8 na escala de Richter, abanão muito inferior ao sentido no ano de 1755.
O que ainda ninguém noticiou é que ontem, precisamente às oito da noite, se deu um enorme abalo em Portugal, quem sabe se com um maior número de vítimas do que o terramoto de 1755.
Foi este o terramoto: Portugal disse “sim” ao aborto livre até às dez semanas.
Muitos foram os edifícios a desabar e a tornarem-se pó, ou a arderem até que um maremoto os venha afogar: o edifício da ajuda à mulher em dificuldades, o edifício da solidariedade…
Eu sinto especialmente falta de um edifício (daquele edifício magnânimo e imponente, maior do que o World Trade Center), sinto falta do edifício do direito à vida. Esse jaz, definitivamente abalado nas suas fundações e arde, consome-se, transforma-se em poeira. No rescaldo do terramoto, posso perfeitamente ver o seu cadáver fumegante e o ar em redor empoeirado. Demorará anos até que os outros (os tais 59%) tenham consciência que são o epicentro do terramoto que geraram, quem sabe se não passarão séculos até que a terra pare de tremer. Será então possível a reconstrução dos edifícios sepultados, dedos apontados de gigantes enterrados.
Com uma simples cruz no “sim”, Portugal retrocedeu anos largos no percurso que a civilização deveria tomar: o percurso árduo e difícil da ajuda à mãe em dificuldades, o percurso economicamente mais caro de um maior abono de família e da reconstrução do decrépito sistema de adopção, o percurso da solidariedade e sobretudo o percurso da protecção aos mais fracos.
O ser humano até às dez semanas de existência foi, por excelência, a vítima deste enorme terramoto. E no entanto, Portugal fechou os olhos. E no entanto, Portugal decidiu optar pelo direito da mulher a decidir sobre o direito do feto à vida. E no entanto, Portugal preferiu deixar-se levar por Anacletos, Fernandas Câncios, Zés Sócrates, Edites Estrelas, Vitais Moreiras… E no entanto, e no entanto…
Este foi um terramoto festejado com palmas e urras pelos defensores do “sim”, que desta maneira dedicaram um festim a Hades.
Mas enfim, como o terramoto de 1755, também este passará, deixando no lugar da sua memória um desconforto e tristeza pelo passado ter sido assim.
O pior é que desta vez não existe nenhum Marquês de Pombal.
Publicado por Afonso Reis Cabral às 15:57
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5 comentários:
De Anónimo a 19 de Abril de 2007 às 14:08
Se Portugal não se arrepender do que fez no dia 11/2/2007, o terramoto de 12/2/2007 será apenas um prenúncio de um futuro terramoto que arrasará Lisboa e outras cidades portuguesas.

Não se brinca com Deus.

11.2.7 - Dia do referendo

Capítulo 11,versículos 26, 27 e 28

"26Vede que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição:

27A bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu hoje vos ordeno;

28porém a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, mas vos desviardes do caminho que eu hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que nunca conhecestes."

Deuteronómio 11,26-28


12.2.7 - Dia do terramoto


Capítulo 12, versículos 25, 26 e 27


"25Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles quando rejeitaram o que sobre a terra os advertia, muito menos escaparemos nós, se nos desviarmos daquele que nos adverte lá dos céus;

26a voz do qual abalou então a terra; mas agora tem ele prometido, dizendo: Ainda uma vez hei de abalar não só a terra, mas também o céu.

27Ora, esta palavra - Ainda uma vez - significa a remoção das coisas abaláveis, como coisas criadas, para que permaneçam as coisas inabaláveis."

Hebreus 12, 25-27

Portugal está avisado.

Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida.
De Afonso Reis Cabral a 18 de Fevereiro de 2007 às 22:33
Caro Al Fredo,

Comparar o aborto ao divórcio é um nada argumentativo, assemelha-se a um balão muito grande, que faz muita vista, mas que é oco por dentro. Como imagina, não posso comentar o oco, o nada.
O argumento de não ser obrigatório, outro tanto: o que interessa, objectivamente, é que com o “sim” deixou-se o ser humano até às dez semanas completamente desprotegido, à mercê da vontade de outrem. Aqui reside o cerne da questão.
Quanto à Igreja, volto a deixar aqui uma passagem de um artigo de Mário Pino no Público de 13-02-2007:
“Quem resiste? Sobretudo os crentes, ouvi dizer. Os adeptos do sim disseram muitas vezes que na questão do aborto os católicos não deviam pretender impor uma moral confessional num Estado laico. São portanto os não crentes a identificar a fé religiosa como inspiração da cultura de defesa intransigente da vida. Com essa alegação, pretendem ilegalizar a cidadania dessa cultura. Porém, sem razão. Foram os católicos, inclusive os bispos, a dizer que a defesa da vida vale por si mesma, no plano da laicidade, com plena autonomia racional cultural; e que é nesse plano que os católicos intervêm.
A propósito, recordo que, numa entrevista que ficou célebre, o famoso filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio, laico e liberal progressista, expoente da luta pelos direitos humanos, pela democracia e pela paz, afirmou que “o direito do nascituro pode ser respeitado somente deixando-o nascer”, acrescentando: “surpreendo-me que os laicos deixem aos crentes a honra de afirmar que não se deve matar.”

Muito obrigado pelo seu comentário.
De Anónimo a 18 de Fevereiro de 2007 às 16:15
Não há nada mais triste que a tristeza.
o sim Ganhou,e então.., não é um procedimento obrigatório.
Quando foi do Divórcio também andavam aflitos e nada de especial aconteceu.
Vergonha , vergonha foram as Missas transformadas em comícios , esses sim tiveram uma grande derrota.

Al Fredo
De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2007 às 11:01
Post muito oportuno. Parabéns pelo conteúdo.
De ELA a 15 de Fevereiro de 2007 às 10:09
Parabéns pelo post. É triste considerar-se que o SIM ao aborto é um passo em frente na modernidade. Tenho pena!

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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
in A subject of scandal and concern

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