Domingo, 19 de Agosto de 2007

Silêncios, ruídos e truques de magia

O silêncio do Governo impressiona, sem dúvida, mais do que as declarações tragicómicas de Miguel Portas. Quem cala consente, o ditado aplica-se muitíssimo bem a esta situação. Pelo mesmo motivo, o silêncio dos partidos, com a feliz excepção do PSD, é demasiado alto para não ser ouvido. A inacção silenciosa da GNR impressiona e tem que ser explicada. Acontece que o silêncio explica muita coisa, não é?
(imagem via Abrupto)



No entanto, nesta balança de silêncios e ruídos, a entrevista de Miguel Portas ao DN pesa muito e não pode deixar de ser comentada.
Num truque de retórica fabuloso, Portas-Houdini transforma o óbvio no improvável. As suas declarações como que saem de uma cartola e o público, admirado, tolhido pelo espanto, lança um Oh! seguido de uma salva de palmas vigorosa. Estamos perante um verdadeiro ilusionista! Vejam, senhoras e senhores, como Portini parte em dois uma única acção e mantém o raciocínio aparentemente coerente! “Mas há que distinguir duas coisas: a acção espectacular que coloca na agenda o problema dos trangénicos; outra coisa são os eventuais danos do agricultor.” Incansável, o mágico português ilude as mentes do público e diz: “A sociedade deve separar a dimensão política da dimensão judicial dos casos.” Assim, o público percebe que é perfeitamente desculpável destruir propriedade privada, desde que seja por política. Aplausos! Mas calma, calma… Portini tem ainda um truque na manga: “O limite é a violência contra pessoas.” O público fica sem folgo, tenta escolher entre aplausos e levar o mágico aos ombros, porque, afinal, desde que não saia ninguém lesado fisicamente e desde que os motivos sejam políticos, pode-se cometer todas as ilegalidades! Grande mágico, grande truque!, pensam. Alto! Portini escolheu o melhor para o fim: “Eu dissociar-me-ia de acções como as de Silves se elas se tornassem sistemáticas, se elas passassem a queimar tudo quanto são campos de milho transgénico.” Este é o típico truque da multiplicação, o público percebe que um crime só se torna condenável se for repetido várias vezes. Impressionante! Mas a apoteose ainda está por vir, pelo que o mágico despe a sua capa, num gesto teatral, e avisa o público do fim eminente… (Tambores: Bum, catabum, bum, catabum, bum-bum!!) Os ecoterroristas usavam máscaras, não para esconder a sua identidade criminosa, mas sim para resguardar as suas delicadas faces do maligno pólen transgénico e também para salvaguardar os mais louváveis motivos estéticos! Como ninguém esperava por este truque de deturpação da realidade, o público tomba, rendido…

Publicado por Afonso Reis Cabral às 11:56
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1 comentário:
De Anónimo a 20 de Agosto de 2007 às 16:44
A estupidez é sempre mais estúpida quando é servida por pessoas inteligentes. E este é o caso do Miguel Portas. Verdade seja dita que o gajo também tem direito à estupidez!
Apesar disto tudo ou por causa disto tudo a sua estupidez (a dele) é ainda mais imperdoável!

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John Osborne
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