Sábado, 2 de Agosto de 2008

Medeia

 

Há por vezes episódios da vida real que encarnam a essência da ficção. Desta vez Medeia é inglesa e a tragédia grega de Eurípides foi representada recentemente na versão mais simples e pérfida que se possa imaginar.
Emma Hart sempre tivera problemas nos seus relacionamentos e reagia explosiva às separações, vendo-se assolada por um acesso de ódio e rancor quando observava os seus companheiros seguirem a vida sem ela. Tal como Medeia, Emma poderia ter dito: «Ai de mim! Que desabe sobre a minha cabeça o fogo do céu! Que interesse tenho ainda em viver? Ah, antes a morte me precipite e me liberte de uma existência odiosa.»
No entanto, é depois de conhecer Shaun Dangerfield, de por ele se apaixonar e dele ter um filho, Lewis, que verdadeiramente Medeia nasce em si. Estupefacta, viu Shaun, o seu Jasão, correr para os braços de uma incauta Créusa, deixando-a «aniquilada e infeliz». Ruminada em depressão, Emma viveu à custa de anti-depressivos que acalmavam, mas não o suficiente, os seus sentimentos de vingança. E a vingança foi desenhando os contornos do plano: a única maneira de fazer Shaun sofrer era matar o seu próprio filho. Emma não teve nenhuma Corifeia como confidente, mas se esta lhe perguntasse: «Ousarás matar o teu filho, mulher?», responderia como Medeia: «É isso que sobretudo despedaçará o coração do meu marido.»
Assim, o inocente Lewis, de cinco anos, viu-se obrigado a engolir uma bateria letal de anti-depressivos. Medeia, ao contrário de Emma, resistiu ao horror do que fizera e antes de fugir teve tempo de enfrentar Jasão. Emma, essa, fugiu no dia seguinte à sua maneira, suicidando-se, mas não antes de escrever um bilhete a Shaun onde resume o seu reflexo de Medeia: «Eu disse que te iria fazer pagar. Goza a tua vida, agora. (…) Mas lembra-te, é tudo culpa tua.»
A realidade, por não ser ficção, é sempre pior do que uma tragédia grega. Tomara que assim não fosse.

 

Quadro: Paul Cézanne

Publicado por Afonso Reis Cabral às 10:24
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1 comentário:
De Anónimo a 4 de Agosto de 2008 às 00:02
Tudo o que é grego corre no sangue do Afonso enquanto o mes de Setembro não passar

^^

Rita

P.S. - Ja faltou mais...

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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
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