Domingo, 4 de Maio de 2008

Beijo de Mãe

Porque hoje é o dia da mãe, aqui vai um texto meu que foi anteriormente publicado no suplemento literário do jornal O Primeiro de Janeiro e também neste blog:


    Depois de tudo, de todos os anos e de todas as vicissitudes da vida, ainda conservava a caixa, memória e espaço inócuo, estática simplesmente no tempo. Setenta e muitos anos haviam já passado! O tempo tinha exercido sobre ele o efeito que faz uma gota de água repetidamente numa rocha – e ele não tinha a porosidade dura da pedra…
    Pois os lustros foram passando, lentamente, e, com o decorrer do tempo, cada vez mais alheio, a vida continuou. Mais algum pouco que meio século e o momento era exacto: sobrara apenas, e já muito, a caixa com o ás de copas gravado no metal da tampa. Mais que envelhecido, apodrecido, mas tendo em si a nostalgia da vida, pegava, trémulo, na caixa selada por fita-cola preta.
    A sua mulher, vaga memória, permanecia sempre nos seus gestos como parte de si, mas desapercebida. Os filhos, todos marcados pela morte, estavam enterrados no fundo da sua alma. Não estavam mortos para ele, mas sim adormecidos nos confins da eternidade.

    Um dia pedira a sua mãe afincadamente que lhe desse um beijo no tempo. A mãe, surpreendida, dera-lhe um beijo na testa, um beijo no presente. Não, não! Queria um beijo daqui a muitos anos, quando a sua mãe já não lho pudesse fisicamente dar.
    - Mãe, dá-me um beijo no tempo, daqui a muitos anos! Mãe, dás?
    Um dia depois, lá se decidiu e deu um beijo no filho do futuro, fechando a caixa logo de seguida para que este não se perdesse no ar, no tempo do presente.
     Era assim que o seu filho desejava.

     Esse beijo na caixa fora dado com a mesma convicção com que todos os dias, antes de o filho adormecer, visitava o seu leito e lhe marcava a testa com esse cunho do amor. Ele, envolto em lençóis, dormia toda a noite com a presença da mãe na testa, embalando-o como se ele ainda fosse um bebé.

    Os anos trataram de fazer com que a mãe não pudesse fisicamente dar mais nenhum beijo. Ele, por sua vez, dera muitos beijos aos seus filhos, embalando-os, porventura, como se eles fossem ainda bebés, mas nunca com a mesma verdade de amor com que sua mãe lhe dava, há já muito tempo, beijos no leito.

    Nesse dia estava sozinho, e já parco de vida, esperando a morte. Era de noite e só uma lâmpada luzia em toda a casa, envolta numa camada de pó. O filho, que já fora pai e marido e que, agora, não era nada, sentou-se na cama e tirou vagarosamente os chinelos, alinhando-os. Depois, enrolando-se, deitou-se em lençóis, como se fosse um bebé. A caixa lá estava. Com as suas mãos finas, onde se viam todas as veias, raspou a fita-cola preta para a arrancar com lentidão. Recebeu o beijo de sua mãe.

    No dia seguinte, quando a empregada entrou no quarto, encontrou-o morto ao lado de uma caixa aberta, mas com um sorriso de quem está só a dormir, embalado pelo beijo de sua mãe. 

             
Publicado por Afonso Reis Cabral às 08:34
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6 comentários:
De Raul Martins a 4 de Maio de 2008 às 12:08
Fiz um enlace para este seu texto. Foi sugestão da Teresa HOFFBAUER. E ainda bem que o fez.
Parabéns pela beleza literária e pela beleza de conteúdo do seu texto. Muito humano.
De Afonso Reis Cabral a 4 de Maio de 2008 às 12:49
Obrigado pelo "enlace" e pelo comentário.
De teresa hoffbauer a 4 de Maio de 2008 às 12:29
No próximo domingo é aqui, na Alemanha, o Dia da Mae. A tua história é tao comovente e bela que nao posso deixar de te perguntar, se a posso traduzir e publicá-la no meu blogue no próximo domingo.
Eu sei a responsabilidade em nao tirar ao teu texto a qualidade que tem.
Eu tentava o meu melhor. E tu arriscas?

A tua admiradora de sempre.
De Afonso Reis Cabral a 4 de Maio de 2008 às 12:50
Tenho todo o gosto não só em que o texto seja traduzido, mas principalmente que seja publicado no seu blog! Assim, aceito o desafio e até ao próximo domingo!
De Anónimo a 4 de Maio de 2008 às 16:46
Lindíssimo.

Rita Machado
De Katharina Rank a 17 de Maio de 2008 às 11:50
Seit ich "Kuss der Mutter" gelesen habe, wünsche ich mir ein riesengroßes Regal,
angefüllt mit verschlossenen Schachteln.
In jeder schweren Situation und in jeder
traurigen Stunde würde ich eine Schachtel
vom Regal nehmen und sie vorsichtig öffnen.
Der Inhalt der Schachtel würde sich sanft auf
meiner Stirn niederlassen und mit mir fühlen: Geteiltes Leid ist halbes Leid!
Bei jeder Freude würde ich ebenfalls eine
Schachtel öffnen und den froh entweichenden
Kuss auf meiner Stirn fühlen: Geteilte Freude
ist doppelte Freude!
Das Regal mit seinem unermesslichen Schatz
wäre Kraft und Hoffnung für das ganze Leben.

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John Osborne
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