Sábado, 8 de Março de 2008

Manifestação de professores


Os professores manifestam-se hoje em peso contra um conjunto de políticas, não contra o conceito geral de “avaliação”, esse é apenas o argumento esgrimido pela Sr.ª Ministra para cortar o debate pela raiz. Aliás, é notória a falta de tacto de Maria de Lurdes Rodrigues, que por vezes extravasa todos os limites: chamar aos contestatários professorzecos é inadmissível. Frases como esta apenas vêm agravar o clima pesado que já se faz sentir nas escolas. É preciso saber o que é que os professores contestam – não se pode confiar na propaganda do Ministério da Educação (ME)…

Da complexidade labiríntica do Estatuto da Carreira Docente, vejamos alguns aspectos contestados pelos professores:
Os professores são avaliados pelo Conselho Executivo e por um “professor coordenador de departamento curricular”, ou seja, virtualmente qualquer professor que por um motivo ou outro seja eleito pelos demais. O Conselho Executivo limita-se a avaliar parâmetros como o da assiduidade e pontualidade, da participação do professor em causa nas actividades escolares, etc., já o professor coordenador, que tem nos seus ombros solitários o peso de escrutinar colegas, deve avaliar “a qualidade científico-pedagógica" de disciplinas que não domina, por não serem as suas. Assim, a Sr.ª Ministra acha que um professor de educação física tem capacidades para avaliar um professor de matemática…
A “coisa fica ainda mais preta” no que diz respeito aos objectivos pelos quais os professores são avaliados. Mesmo antes do ano lectivo, o Conselho Executivo (CE) fixa metas a atingir: tenciona reduzir em x% o abandono e aumentar em y% o rendimento escolar. Então, compete a cada professor, em relação ao estipulado pelo CE, definir os seus próprios objectivos. O ano lectivo ainda não começou, as turmas ainda não foram distribuídas e já é exigido aos professores que, mesmo antes de fazerem testes diagnósticos, digam quais são as notas a atingir e qual é a redução do abandono pretendida. De olhos vendados, o mais natural é que não se acerte o tiro! Que responsabilidade tem um professor se uma determinada percentagem da turma nem sequer aparece no primeiro dia de aulas? Que responsabilidade tem o professor se, depois de ter estipulado 13 como nota a atingir, se depare com uma turma de 8, ou, para o caso tanto faz, com uma turma de 18? Isto seria ridículo, se não fosse trágico para os que são avaliados.
Esta avaliação tem efeitos perniciosos. Antes do mais, cria-se um clima de mal-estar entre os professores, que competem entre si para caírem nas boas graças do professor coordenador. Depois, é perfeitamente natural que os professores adiram a um certo facilitismo no que diz respeito à atribuição das notas… De certa forma, só estariam a equilibrar a injustiça a que foram sujeitos!
Quando ao cenário descrito se junta a vergonha que são os Cursos Profissionais, cujos alunos dificilmente chumbam (assim, o ME pode dizer que aumentou o rendimento escolar, pudera!), ou ao apoio inexistente aos bons alunos, esses que, abandonados, continuam a trilhar o seu caminho de excelência, ou ao novo Estatuto do Aluno, que obriga os alunos faltosos a fazerem um teste sobre a matéria que não deram, mas se chumbarem no teste têm ainda direito a sucessivas explicações dos professores, etc., o resultado será, sem dúvida, uma manifestação sem precedentes.
Será uma manifestação que diz BASTA ao esmifrar do excelente capital humano de que dispomos, tanto docente como educando. Em suma, uma manifestação que diz BASTA a esta Ministra.




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Sobre o mesmo assunto, pela blogosfera (em actualização):

Avaliação de professores 2 e Estar errado, Francisco José Viegas n'A Origem das Espécies
Assim não se pode ser professor, Miguel Abrantes no Câmara Corporativa
Avaliação, Vital Moreira no Causa Nossa
Só Cavaco ainda aguenta esta ministra, Pedro Correia no Corta-fitas
O Endosso
, Eduardo Pitta no Da Literatura (logo interpolado por  João Paulo Sousa e Pedro Sales )

A manifestação dos professores, Luís Naves no Corta-fitas

O fim da maioria absoluta, Francisco Almeida Leite no Corta-fitas

Depois da manifestação, Tiago Barbosa Ribeiro no Kontratempos

O significado da manifestação, Bruno Alves no Desesperada Esperança

E agora?, Sofia Galvão no Geração de 60

O Oriente é vermelho, o Ocidente será, Tomás Vasques no Hoje Há Conquilhas

Professores V Ministra, Carlos Furtado no Nortadas

Que fazer?, Fernando Martins n'O Cachimbo de Magritte

Por respeito, Miguel Portas no Sem Muros

Antes e depois da manifestação, José Medeiros Ferreira no Bichos Carpinteiros

Publicado por Afonso Reis Cabral às 12:42
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2 comentários:
De Muito bem, mas... a 12 de Março de 2008 às 13:20
O Departamento do professor de Educação Física não é o mesmo que o Departamento do professor de Matemática! Essa possibilidade é difícil de algum dia vir a acontecer.
De Afonso Reis Cabral a 12 de Março de 2008 às 15:39
Muito bem, mas quem diz professor de educação física, diz um professor de literatura a avaliar um professor de latim, por exemplo. Não passa pela cabeça de ninguém que essa pessoa tenha capacidades científicas para o fazer, menos esta Ministra.
Obrigado pelo comentário!

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John Osborne
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