Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Aborto, uma perspectiva (II): O aborto clandestino, um argumento falacioso

Soube pelo Blogue do Não que hoje, num programa da TVI apresentado por um sujeito chamado Goucha,- não digo isto ironicamente, apenas não sei o nome próprio do homem,- foi entrevistado um senhor cuja mulher havia morrido há oito anos devido a um aborto clandestino. Segundo o mesmo post, escrito pelo Rui Castro, a quem faço a devida vénia pelo trabalho que tem feito nesse blog, o tal Goucha aproveitou-se da situação para fazer campanha pelo SIM, enquanto que o senhor que fora entrevistado mostrava o seu sofrimento pelo que havia sucedido.


Não sei o que disse exactamente o tal apresentador de televisão e por isso não vou comentar a situação, mas faço as seguintes observações sobre o tão usado argumento dos abortos clandestinos e das consequências que eles acarretam:


Dizer que o aborto, se realizado em estabelecimento legalmente autorizado não trará tantos riscos como um aborto clandestino, é completamente falso! Ora vejamos:



  • O aborto de per si é um ataque à saúde da mulher que o faz:





  • "Poucos riscos em obstetrícia são tão certos como aqueles a que a grávida se expõe quando aborta após a décima quarta semana de gravidez." (Cf. Duenhoelter & Grant, "Complications Following Prostaglandin F-2A Induced Midtrimester Abortion," Amer. Jour. OB/GYN, vol. 46, no. 3, Sept. 1975, pp. 247-250);



  • "Uma das razões que mais frequentemente levam as mulheres à urgência de ginecologia, são abortos feitos em clínicas de aborto legais." (Cf. L. Iffy, "Second Trimester Abortions," JAMA, vol. 249, no. 5, Feb. 4, 1983, p. 588.);





  • Além disto, um estudo recente afirma que há sérios riscos de o aborto provocar cancro da mama; nos EUA morrem 10 000 mulheres por ano com cancro provocado por um aborto. Temos, portanto, consequências físicas: hemorragias, infecções, gravidez ectópica quando não assistida, esterilidade e infertilidade; e ainda consequências psicológicas, terríveis e medonhas, que afectam a mulher, o pai e a família. Tanto a nivel físico com psicológico, o aborto, em qualquer uma das situações, traz consequências horríveis.




  • Dizer que o aborto clandestino é feito sem condições de higiene e por pessoal incompetente é, também, algo por provar. Quais são os dados que apoiam esta afirmação? Como sabem as qualificações dos que fazem os abortos a essas mulheres? Como é possível afirmar coisas dessas, se nem sequer se sabe o número de abortos clandestinos em Portugal? Não existem estudos que forneçam dados para suportar tal afirmação. Fazer crer que, legalizando o aborto até às dez semanas, este passa a ser feito por pessoal competente e com as condições necessárias é mentir descaradamente, visto que não se sabe como, por quem e em que circunstâncias são feitos os abortos clantestinos em Portugal.



    «As mulheres sofrem e morrem em abortos legais em parte porque o aborto é inerentemente perigoso, é um ataque violento, e em parte porque as pessoas que se dedicam a fazer abortos podem ser tão perigosos para a saúde das mulheres como alguns dos infames abortadores de vão-de-escada».(Cf. Aborted Women: Silent No More, David Reardon, Chicago, Loyola University Press, 1987.).





  • Aquela outra afirmação, tão badalada, de que a despenalização do aborto é uma forma de acabar com o aborto clandestino é também problemática: não é razoável que um acto mau, como o de roubar, passe a ser legal só porque não se consegue que acabem os roubos em Portugal. Já toda a gente disse que o aborto é mau, que não é desejável para nenhuma mulher, mas como existem abortos clandestinos - quantos, não sabemos! - vamos legalizar. Porque não aprovar medidas de apoio à natalidade, à família? Porque não apoiar essas mulheres para que elas não tenham de recorrer ao aborto?




  • Além disso não existe nenhum país com uma lei que permita o aborto, em que o aborto clandestino tenha acabado. Na Índia, por exemplo, onde o aborto é legal há 25 anos, por cada aborto legal são feitos dez abortos clandestinos. Existem diversos estudos que provam que o mesmo que acontece na Índia, se verifica noutros países, como Inglaterra, Japão, Hungria e EUA. (Inglaterra: Brit. Med. Jour., May 1970, 1972, e Lancet, Mar. 1968; Japão: Asahi Jour., Oct. 16, 1966; Hungria: International Jour. of OB/GYN, May 1971; EUA: Amer. Jour. of Public Health, No. 1967. )




  • Tambem é mentira, segundo vários estudos, que, após a legalização do aborto, só aborta quem abortaria clandestinamente. Por exemplo: nos Estados Unidos, um estudo verificou que 72% das mulheres interrogadas afirmam que, se o aborto fosse ilegal não o fariam; 24% das interrogadas tinham dúvidas se o fariam e apenas 4% afirmam que fariam o aborto, mesmo que a prática fosse ilegal. (Cf. Aborted Women: Silent No More, David Reardon, Chicago, Loyola University Press, 1987.)




Tenho, portanto, várias razões para afirmar que este argumento, muito utilizado pelos pró-aborto, é, sem dúvida alguma, falacioso. Não tem qualquer ponta de veracidade e é um sofisma, pois quem o afirma sabe do que fala e os que lhes dão ouvidos não querem realmemente saber.

Publicado por José Tomás Costa às 22:56
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2 comentários:
De José Tomás Costa a 22 de Novembro de 2006 às 23:49
Embora o 1º "A vida humana é inviolável" se aplique ao caso do aborto, parece-me a mim que, o segundo "Em caso algum haverá pena de morte" não seja aplicável, visto que a pena de morte é referida para um caso particular, se é legal aplicar a pena de morte a uma pessoa culpada de algum crime grave
De Afonso Reis Cabral a 22 de Novembro de 2006 às 23:35
Na Constituição da República Portuguesa (1976): 1- A vida humana é inviolável. 2- Em caso algum haverá pena de morte. (Parte I, Título II, Capítulo I, Artigo 24.º)

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