Quinta-feira, 14 de Junho de 2007

Livros, ventos e racismo


Depois de ler num sopro o livro “Estação das Chuvas”, de José Eduardo Agualusa, muitos são os pensamentos derivados, como raízes bebendo da mesma água. Há livros que passam por nós como uma brisa: agradáveis, mas efémeros. Outros há como uma rajada: incomodativos, mas cedo se aperta o casaco e esquece-se a agitação. Livros são ventos. Este em particular, se eu vivesse nos trópicos, diria que é como o vento Alísio: regular e carregado de humidade, por isso persistentemente incomodativo, o que é bom.
Muitos são os dramas que o livro descreve, desde a guerra do ultramar até à guerra civil de Angola, passando pelo racismo contra os mulatos. Pegando neste último ponto, muitos são os pensamentos que dele derivam (as tais raízes bebendo da mesma água).
Por favor, não questionem a lógica narrativa, já que escrevo entre o ricochete do pensamento.
Uma das raízes sobre o tema “racismo” que o livro me suscitou enterra-se na visão que o europeu tem de muitos dos actuais conflitos existentes em África, principalmente a subsariana. Muitas vezes, quando se fala sobre o assunto, surge sempre alguém com uma tirada mais ou menos condescendente, deste estilo: “Ah, isso em África é sempre assim!...” Não será esta uma atitude racista, ainda que não intencional? Digo isto porque a tirada põe o europeu que a pronunciou num nível superior, abastado, ao mesmo tempo que condescende com um facto que toma como consumado. Ou seja: para aqueles tipos já não há salvação! É racista porque esquece os inúmeros conflitos que a Europa enfrentou ao longo do século passado, incluindo as duas grandes guerras, já para não falar no recente massacre da Bósnia. Doze anos é muito pouco tempo. Com este pensamento não se desculpa de maneira nenhuma os inúmeros genocídios que a África subsariana já enfrentou, apenas se demarca uma atitude que passa também por cruzar os braços em sinal de resignação.
Isto vale o que vale (muito pouco), no entanto penso que esta é mais uma vertente do racismo, que nunca é unilateral:
“A paixão por Paulete transformara-se num sentimento perigoso. Telefonava-lhe todos os dias, ia buscá-la à embaixada de Itália, onde ela trabalhava. Fazia-lhe chegar longos poemas de amor. Paulete tratava-o muito mal. «Nascer branco», dizia-lhe, «é uma desgraça pior do que nascer sem pernas. É nascer sem alma.»”
Publicado por Afonso Reis Cabral às 19:00
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2 comentários:
De Afonso Reis Cabral a 15 de Junho de 2007 às 13:13
O livro é mesmo muito bom.
De Alf a 15 de Junho de 2007 às 12:18
Comprei este livro há dias na Feira dos ditos. Ainda não o li mas a expectativa é elevada.

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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
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