Sexta-feira, 10 de Novembro de 2006

O Pior Português de Sempre

O sonho do pior português de sempre é ganhar a lotaria. Ele vive numa constante ansiedade e todas as semanas diz «como é que foi possível eu não ter ganho…?». Quando faz as cruzinhas nos números da sorte (golos do Pauleta a multiplicar pelo número de golos do Figo, subtraindo as derrotas do SLB), este singular português benze-se e, depois, bate três vezes na madeira que estiver mais a jeito.
Mas que pena, ontem mesmo, este grande português na dimensão de ser pequeno, ter perdido o episódio especial da Floribella…! É que não tem tempo… Tantas coisas para fazer, sempre tão atarefado entre comprar o pai natal insuflado para por na janela e entre a leitura de O JOGO, que nem se lembrou desse grande momento do dia, em família (cada um com o seu tabuleiro) vendo o tal episódio em que a menina linda, pedindo ajuda às fadinhas, vai finalmente beijar o outro, o que diz que é rico.
No dia seguinte, o pior português de sempre, fica muito espantado pela manchete do jornal grátis DESTAK «Portugueses perdem 64 milhões em três semanas de jackpot» e regurgita uma série de palavrões sobre o estado de Portugal, e que isto está tudo mal, e que isto é uma merda.
Este senhor trabalha numa escola metido dentro de um cubículo de ferro e vidro de onde gere os movimentos dos docentes e educandos e foi este senhor, maravilhosamente pequeno na sua grandeza, que um dia saiu agitado do seu posto e disse a um aluno, ante uma pergunta simples «Eu sei lá! Não sou pago para pensar!».
Houve um dia em que o director da escola se lembrou de nomear o melhor funcionário, o funcionário com mais prestigio e que desempenha melhor as suas úteis e sérias funções. O senhor pior português disse por essa ocasião, verdadeiramente ofendido “Tá mal! Devia de ser um sorteio por todos, ao calhas”. Por mais incrível que pareça, a escola consentiu e hoje, por mero acaso, este senhor tem um pequeno diploma mal impresso onde se pode ler «Melhor Funcionário Do Ano».
No fim do dia, ao apanhar o autocarro em direcção a sua casa meteu-se numa enrascada com o motorista. Entre o pára arranca, não é que o tipo, não reparando, parou o autocarro dez metros depois da paragem? Isto não pode continuar assim. Na verdade, o pior português de sempre já tinha fisgado o gajo que no outro dia não deixou sair uma velhota. Gota de água. Portanto, balançando o punho e todo o corpo depois dele, arremessa uma patada descomunal e, tal qual no Wrestling, o motorista fica K.O.
De noite, com o pai natal insuflado brilhando na janela e vendo um outro episódio especial da Floribella (a menina linda afinal de contas era meia-irmã do outro que diz que é rico…), recebe uma sms no telemóvel 3G a dizer que iam todos fazer greve no dia seguinte. Claro que ele também tinha que fazer greve, afinal de contas não é mais do que os outros.
E assim o pior português de sempre teve o seu rico fim-de-semana prolongado e é justamente por isso que eu que neste momento deveria estar a ter aulas, me sento e aqui escrevo algumas considerações sobre o pior português de sempre…

(Conjunto de situações reais e imaginárias que, sem dúvida alguma, são a cara chapada de algum português pelas terras lusitanas opinando.)
Publicado por Afonso Reis Cabral às 12:25
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2 comentários:
De Afonso Reis Cabral a 11 de Novembro de 2006 às 12:27
Subscrevo tudo o que disse no seu texto. Fico também a pensar na sua opinião de que em cada português mediano existe um «tirano em potencial» e não posso deixar de concordar. São inúmeros os casos que já presenciei de pequenas mesquinhices de cariz tirano, pequenos grandes actos que caracterizam muito bem o português mediano que os pratica. Muito obrigado pelo comentário e pela enorme disponibilidade que tem tido para ler os textos que aqui vão sendo escritos.
De Pico della Mirandola a 11 de Novembro de 2006 às 10:50
De facto, o que descreve neste bem elaborado texto reflecte um pouco de verdade relativamente ao pior português, aqui sim talvez o Ricardo Araujo Pereira (Gato Fedorento) tenha razão e se possa eleger o "português mediano".
Realmente sempre me espantou o dinheiro (muito dele se calhar necessário para fazer face a outras situações ) que se gasta a escolher as cruzinhas que representam a data do nascimento (do próprio e da sua prole), do casamento, da compra do periquito, para (sonho do tal português mediano) ficar estupidamente rico sem nada fazer para tal. Em época de contínuos jackpots então assume contornos irreais!..
Por mim sempre achei verdadeiramente imoral que alguém possa enriquecer escolhendo 6 numeros e 2 estrelas (ou lá o que é), enquanto outros vivem uma longa vida sem possibilidade de a viver condignamente, pois limitam-se a sobreviver com o fruto do seu trabalho.
Não sei se já observou que em qualquer português mediano reside um pequeno tirano em potencial? Dêem-lhe a possibilidade de exercer alguma autoridade e/ou selecção e verão...
O português mediano é um bom candidato. Mas se esse português mediano consegue singrar à custa da "chico espertice" (e da "enorme coincidência" de ganhar algumas lotarias...) até um lugar onde se julga inatingivel então esse passa a chamar-se, p.e., Valentim Loureiro.

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