Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

Fernando Pessoa (1888 - 30 de Novembro de 1935)


O blog Blasfémias noticia num post de hoje o 13.º aniversário da Casa Fernando Pessoa, fazendo um link para o blog Origem das Espécies, que também havia publicado um post sobre o assunto.
Grande aparato, tudo óptimo. Bestial. (Entrada livre, comes e bebes...)
O que o Blasfémias e o Origem das Espécies se esqueceram de dizer é que hoje (e por isso, possivelmente, a Casa Fernando Pessoa tenha feito coincidir a data…), dia 30 de Novembro, faz precisamente 71 anos da morte de Fernando Pessoa.


Publicado por Afonso Reis Cabral às 21:02
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Conversas d'autocarro I


(Conversa entre motorista e passageira de oitenta anos.)

MOTORISTA - Se está chuva, está chuva, se está frio, está frio, se está sol, está sol… Oh, meu Deus que isto…

PASSAGEIRA - Tem razão! Mas sabe o que o meu menino dizia? Quem trabalha não tem frio.

MOTORISTA - Pois, mas a idade é que mata.




30-11-2006, 13:30h, autocarro n.º 300


Publicado por Afonso Reis Cabral às 14:50
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Naturezas vivas I



Publicado por Afonso Reis Cabral às 14:28
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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006

Sinais de angústia

Publicado por Afonso Reis Cabral às 22:51
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É hoje!


Mais cedo do que eu esperava, o Presidente da República vai anunciar se convoca o referendo e marcar a data. Hoje às oito da noite, uma óptima hora, vamos vê-lo em todos os telejornais. Os comentadores vão ter muito trabalho esta noite...


Publicado por José Tomás Costa às 14:11
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Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

O complot do Pai Natal

Eu não sei quando é que isto tudo começou, mas que eles andam aí, andam! Trepando, subindo, saltando insuflados na sua gordura oca de ar, balançando-se nos tubos de plástico iluminados (plim plim), esboçando um sorriso plástico (ou melhor, um sorriso de operação plástica que mais se assemelha às “maravilhas” faciais da Betty Grafstein…), tentando produzir o seu característico ohhh ohhh ohhhh, mas como o ar é muito e a vontade é pouca, só sai um ohhh ooo úúúúúúúúuuuuuu….
Em suma: eles andam aí prontinhos para nos assaltar as casas.
Dispensaram as renas, limitam-se a ser confortavelmente transportados da caixa para casa, insuflados, aperaltados e, por fim, pendurados nas janelas.
Esses Pais Natal que trepam às janelas são os tipos mais obstinados que eu já conheci: nunca largam o seu posto de assalto às janelas, janelando de fora para dentro.
Estes bonecos insuflados são apenas mais uma das inúmeras demonstrações de uma deturpação do verdadeiro acontecimento do dia 25 de Dezembro. São apenas uns de entre muitos que lutam na trincheira da frente para levar o maior número de presentes às casas dos consumidores, ou não fossem os presentes sinónimo de felicidade!
Eles afinal só querem a nossa felicidade, aceitemos de bom grado.
O Pai Natal insuflado que sobe às janelas é pois o soldado desconhecido que luta em nome de todos por esse bem maior (muito maior para uns do que para outros), mas eu, sabendo disto, não posso deixar de torcer para que uma rajada mais forte ou uma chuva mais pesada o façam cair do topo da sua escadinha iluminada directamente para o chão e que, pelo menos, parta o pescoço. Nada de mais, claro está…

Natal quer dizer nascimento. Mas quem é que no meio de tudo isto se lembrou de nascer…?
Publicado por Afonso Reis Cabral às 21:46
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URNA

Resultados da votação à pergunta «Concorda com a proibição, em países como a França, do uso em público se símbolos religiosos como o hijab?»

Sim - 3 votos (12%)
Não - 22 votos (88%)

Pergunta em votação até à próxima terça-feira: «Concordaria com a entrada da Turquia para a União Europeia?»

Publicado por Afonso Reis Cabral às 19:17
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Sinais de racismo

Publicado por Afonso Reis Cabral às 17:12
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

Kramer (da série Seinfeld)




No passado dia 17 de Novembro, Michael Richards (Cosmo Kramer da série Seinfeld) provocou no fim do seu número de stand up uma grande polémica sobre racismo. Está naturalmente com a carreira em risco. Não é bonito de se ver.



Publicado por Afonso Reis Cabral às 17:45
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Cheias, chuvadas e chuviscos



Anteontem, depois do apocalipse. (Cidade do Porto)
Publicado por Afonso Reis Cabral às 14:16
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Domingo, 26 de Novembro de 2006

Anúncio da Ordem dos Notários

Hoje ao ler o Público deparei-me com um singular anúncio da Ordem dos Notários que me espantou e indignou. Pensei escrever algo sobre o assunto, mas como o Pacheco Pereira se antecipou limito-me a deixar o link (texto escrito às 21:05 do dia de hoje).
Publicado por Afonso Reis Cabral às 23:57
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A morte saiu à rua


Mário Cesariny de Vasconcelos
9 de Agosto de 1923 - 26 de Novembro de 2006





Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

in O Virgem Negra


Publicado por Afonso Reis Cabral às 20:09
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«Os náufragos do autocarro»*

Na antiguidade, há dois milénios atrás, Marco Túlio Cícero brindava os espaços de Roma com a sua arte de retórica, a sua literatura, a sua sapiência… Havia então longas horas de pura eloquência e as tardes eram bem passadas. Terência, mulher de Cícero, tece as suas intrigas no ceio familiar e vai esbanjando, aqui e ali, um pouco dos bens familiares, mas Cícero, orador de corpo e alma, arranja ainda tempo e discernimento para escrever no seu De Oratore: "Com efeito é desta cultura geral que deve florescer e emanar o discurso, que, se não tiver um fundo de conhecimentos assimilados, será um articular de palavras vãs e quase pueril."
Anos antes haviam chegado já as delicias dos mundos conquistados, a helenização lançava as suas brandas brisas doces, e os adeptos (conservadores) do mos maiorum, costume dos antepassados, levantavam as suas vozes iradas contra a libertinagem das novas gerações.
Os jovens tinham as suas aulas com o grammaticus e, mais tarde, se assim o desejassem (e possuíssem o fundo económico necessário…), entregavam-se ao cuidado do rhetor, grego velho e de barbas brancas que relembrava os grandes mestres e a forma de os igualar. Havia até quem partisse para terras estrangeiras, para Atenas, esperando polir os estudos na arte da retórica, esperando preencher ainda mais o fundo de conhecimentos assimilados.
Hoje temos os autocarros e o velho de barbas eloquente é um senhor de 65 anos, declamando as suas verdades às amigas do banco da frente, de capachinho atirado para o cocuruto da cabeça, único local livre de uns pelos finos e rasos que lhe escorrem pela cabeça. À sua frente as amigas rodeadas de sacos Pingo Doce, acenam como se tivessem descoberto o sentido da sua vida nas palavras escolhidas pelo senhor de 65 anos como uma tábua de queijos com um pão gordo cortado ao meio e faca poisada entre os tecidos que envolvem os lacticínios. Embora tenham sido escolhidas com mestria, quem está ao lado sorve nas palavras de revolta do orador um sentido de nada, glorificando a estupidez humana, partindo de bandeira em riste para as terras da gargalhada.
Duas filas atrás, uma velhota de xaile tenta perceber o que se diz, vira a cabeça e então surge uma cara larga, onduladamente rugosa, onde uns tremendos óculos de grossa graduação aumentam os olhos negros, embaciados. Ajeitando as mãos apertadas, busca no chão os sacos que caíram, a carteira de chita que se rompe por baixo, o guarda-chuva que rolou... Acena também levemente de forma oca, como já mal ouve vê apenas os gestos do orador e consente porque alguém com tal segurança só pode ter razão.
O autocarro trava. Lá fora, um polícia passa finalmente multas aos carros que afunilavam as ruas e pelas suas costas acodem pessoas às viaturas, fazendo marcha-atrásm, indo afunilar outros cruzamentos.
O autocarro avança, o motorista pragueja.
Pelos dentes espaçados do mestre que se dirige à populaça demonstrando a sua revolta pelo passe electrónico saem finas projecções de cuspo misturadas com as palavras agora heréticas contra o sistema e o governo. O capachinho rola. Uma das amigas que em vez de sobrancelhas tem um risco de lápis castanho assenta uma vírgula sua no discurso, diz que isto não pode continuar assim, endireita o cabelo atrás e cala-se.
Um outro homem, ao lado, de frente, sorri e coça ligeiramente a testa como que a tirar o chapéu, sinal de respeito.
Uns escassos raios de sol partem o céu mitigado pela chuva.
O orador ergue-se, senta-se, abre os braços!, vinca no ar com as mãos formas de protesto contra os motoristas de autocarro. (Nesse preciso momento, enquanto se encontrava de pé, uma travagem brusca sem qualquer motivo atira o homem para o chão juntamente com as suas palavras.)
Não há direito: até o capachinho foi parar sabe-se lá onde e o homem agora sente-se nu! Insultos, berros, as palavras escolhidas são agora do pior vinho verde de lavrador, engarrafadas em bidões selados por uma tampinha de plástico.
Chega a paragem, o orador sai, as amigas dissipam como galinhas os seus praguejos, agitam até as pernas como que a raspar a terra em busca de sementes e de minhocas.
A velhota de xaile berra porque não conseguiu sair, as portas fecharam-se e nem um «abre-te sésamo!» lhe vale, a marcha prossegue, o guarda-chuva volta a cair e com ele os sacos e a carteira. Por entre as ondas da sua cara duas lágrimas grossas caem, o motorista compadece-se, o autocarro pára, as portas abrem-se e a passageira sai.
Ouve-se o tlim da máquina electrónica. Mais uma vítima entra no ciclo oratório, na máquina infernal!


* Título pedido emprestado a John Steinbeck

Publicado por Afonso Reis Cabral às 15:26
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De gargalhada!

No passado dia 22 foi a grande manifestação dos estudantes, desorganizada e à distância de passa-a-palavra. No Porto os manifestantes seguiram marcha tapando ruas até à DREN (Direcção Regional da Educação do Norte) exigindo tudo e nada, querando aulas de educação sexual, mas aulas práticas, claro está! Chegaram mesmo a atirar ovos e tomates à fachada do edificio.
Querem tudo de fixe, ou seja, a manifestação tomou ares de ser alunos a insurgirem-se contra as aulas...
Em Lisboa não foi melhor. Uma aluna do 10º ano da Escola Secundária Dona Leonor chega mesmo a dizer: "Isto é uma estupidez: os professores quando faltam têm um substituto. E a nós, alunos, quem nos substitui quando não vamos às aulas?" (via Expresso)

Nem vale a pena dizer mais nada.
Publicado por Afonso Reis Cabral às 11:09
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Português

Em Portugal está-se a criar uma cada vez maior confusão entre linguagem escrita e linguagem falada: já se chegou ao ponto de se ver escrevito "tasse" ou "tou" nos testes de português. Mas, mais grave ainda, já se ouvem pessoas a necessitar e a utilizar. Porque é que não precisam? Porque é que não usam? Se necessitar e utilizar já não ficam bem em literatura, mas apenas na tese de douturamento ou no livro de biologia, dizer que se necessita ou que se utiliza soa terrivelmente mal nos ouvidos de um Cristão.
Já se ouve gente que diz, referindo-se aos meios de telefonar no meio do mato que"Eu julgo que necessito de utilizar o telemóvel para efectuar um telefonema quando no interior de uma floresta" em vez de "Acho que p'ra t'lefonar do mato tenho de usar o telemóvel".
Isto é terrivelmente terrível: qualquer dia, de tanto utilizarmos, as conversas duplicarão ou triplicarão de tamanho, diminuindo, no entanto, o conteúdo, porque ao necessitar ou utilizar estamos a dizer palavras com o dobro do comprimento e o triplo da atrapalhação.

Portugueses: Não utilizem!

E vivam os brasileiros que até dizem o "usuário"


P.S.: Para que não pensem que eu julgo, eu penso que julgar é só para os juízes.
Publicado por Afonso Reis Cabral às 10:42
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Sábado, 25 de Novembro de 2006

MEMÓRIAS DA ÚLTIMA NETA VIVA DE EÇA DE QUEIROZ

Por ocasião dos 161 anos do nascimento de Eça de Queiroz, o blog Janelar propôs-se descobrir as mais profundas memórias da última neta viva do escritor, nascida também a 25 de Novembro, no ano de 1920. Emília Eça de Queiroz Cabral aceitou amavelmente a proposta de uma entrevista simples que relembrasse a sua avó, mulher de Eça, o seu pai (primogénito do casal Eça de Queiroz), os tempos da Granja, a causa monárquica, a vida.

Janelar (J) - É neta do escritor Eça de Queiroz?

Emília Eça de Queiroz Cabral (EEQC) - Eu sou filha do filho mais velho do Eça. O meu pai chamava-se José Maria.

J - Quantos filhos é que Eça teve?

EEQC - A mais velha era a minha tia Maria, depois o meu Pai (José Maria); o meu tio António e o meu tio Alberto. Teve portanto três rapazes e uma rapariga. Os meus avós casaram-se cá no Porto, onde a minha avó vivia, numa quinta [Quinta de Santo Ovídio] que ficava onde agora é a Praça da República. Tinha uma casa muito bonita com jardins lindíssimos e uma quinta que ia até à Rua de Cedofeita. Os tios da minha avó iam caçar codornizes onde é agora a Liceu Rodrigues de Freitas (antigo D. Manuel II). Perto da Rua de Cedofeita há uma ruazinha que se chama rua do Mirante que está onde havia um mirante da quinta e eu lembro-me da minha mãe (que nasceu lá) dizer que ia para esse mirante ver passar as procissões que vinham da igreja de Cedofeita [pequena igreja românica]. Era realmente uma quinta muito grande que acabou por ser expropriada. A minha avó tinha uma casa muito bonita em Canelas, pequena (hoje em dia diz-se que é muito grande), mas a comparar com um palácio… muito bonita com um jardim cheio de camélias lindíssimo, de maneira que foi viver para lá com os irmãos. Entretanto o Eça de Queiroz, que era muito amigo de um irmão da minha avó, ia muitas vezes à Granja e ficou a conhecer ainda melhor a família da minha avó.
Foi depois em Paris, aonde foi Cônsul, que tiveram os quatro filhos.

J - E depois da morte de Eça de Queiroz?

EEQC - O meu avô era uma pessoa muito doente e infelizmente morreu muito cedo. Quando morreu a minha avó ficou sozinha em Paris com quatro filhos, enfim, numa grande aflição. Mas foi muito ajudada por amigos, principalmente por uns amigos brasileiros.

J - Quem eram esses amigos brasileiros?

EEQC - Chamavam-se Prado Coelho, e é engraçado porque têm o mesmo nome desse Prado Coelho que escreve. Não sei se são parentes, mas se fossem eu naturalmente já sabia disso, mas não sei. Esses Prado Coelho eram muito amigos e ajudaram-na a fazer as mudanças. A minha avó, enfim, juntou aquilo tudo para se fazer a mudança para Portugal e algumas coisas - algumas óptimas - vieram de barco e ao chegar perto de Lisboa o barco sofreu um naufrágio e foi ao fundo com tudo. Uma parte grande da biblioteca que ele tinha - tinha uma boa biblioteca - bem como um grande retrato dele feito pelo Columbano. Uma das irmãs da minha avó (Benedita) acolheu a minha avó, o meu pai e os meus tios e foram viver com eles na Beira Baixa, em Penamacor, e aí estiveram um tempo. Depois lá arranjaram as coisas para os filhos estudarem e estiveram também um tempo em Lisboa.
Logo a seguir veio a República (poucos anos depois do assassínio do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe) e como toda a minha família era monárquica, conheciam os reis e frequentavam o Paço, tiveram um grande desgosto. A certa altura sentiram-se mal porque eram ameaçados e perseguidos. Foi então que essa tal tia (Benedita), levou a minha avó com os filhos para Londres.

J - Em que circunstâncias é que os seus pais se conheceram?

EEQC - Os meus pais eram primos direitos, começaram a interessar-se um pelo outro e decidiram casar-se e casaram-se lá, em Londres, mais precisamente em Westminster.

J - Quem foram os padrinhos de casamento?

EEQC - O padrinho foi o rei D. Manuel II. A madrinha não tenho a certeza. Há um retrato, já nem sei onde está, onde se vê um pouco do casamento e onde se vê a rainha D. Amélia que também foi. Aí estiveram algum tempo até que acharam que já podiam vir para Portugal. Vieram, mas as coisas ainda estavam farruscas e o Presidente da República da altura - Manuel de Arriaga - mandou dizer à minha avó que se os filhos apoiassem a República, eles continuavam a dar a pensão (a que ela teve direito após a morte de Eça de Queiroz devido à carreira diplomática que este desempenhou), se os filhos não apoiassem a República, cortavam-lhe a pensão. A minha avó perguntou aos filhos (claro que já sabia o que é que eles iam dizer) e eles disserem: «De maneira nenhuma, não apoiamos a República, somos monárquicos!» E lá se foi a pensão!

J - Os seus tios eram todos monárquicos, pensa que o Eça seria também monárquico?

EEQC - Ele tinha uma adoração pela rainha D. Amélia, até há num livro dele (não sei bem em qual) com uma dedicatória à rainha D. Amélia em que diz tudo quanto há de bom. Eu não sei bem dizer se ele era monárquico. Era monárquico porque a sua família era monárquica, a família da mulher era toda monárquica… Penso que ele nunca se teria metido numa causa republicana, nunca teria. Como acção era pouco politico, era isso sim um crítico de maneira que ao escrever evidentemente que falava na politica, nos ministros, mas pertencer a um grupo que fosse pró-monárquico ou pró-republicano não me parece. Vivia muito com as suas personagens e com o seu trabalho de cônsul.

J - O seu pai e os seus tios estiveram envolvidos na Monarquia do Norte?

EEQC - O meu pai e os irmãos meteram-se a fundo na Monarquia do Norte e também os meus avós do lado Resende. Até há uma história engraçada que eu li um dia, mas que é uma história verdadeira. Os monárquicos tinham vencido e estavam ali ao pé da Torre dos Clérigos e então decidiram pôr uma bandeira monárquica no alto da torre dos Clérigos, mas como é que se põe uma bandeira lá no alto? Vai-se por fora, por dentro…? Havia ali um homenzito qualquer que disse: Os senhores o que querem? Querem pôr ali uma bandeira? Eles responderam: Pois sim, queríamos, é a bandeira monárquica! E o homenzinho disse: Ah! vou eu! Pega na bandeira e como um gato trepa por ali a cima, chega ao alto da torre dos Clérigos e planta a bandeira. Infelizmente, a bandeira esteve muito pouco tempo porque a Monarquia durou também muito pouco tempo. Vieram então os republicanos e viram ali no alto a bandeira monárquica. Tinha que se tirar a bandeira. Aparece o mesmo homem e pergunta: Os senhores que querem, querem tirar aquela bandeira e pôr a bandeira republicana? Ah, eu faço isso! E com a mesma facilidade com que a tinha posto, tirou-a e lá colocou a bandeira republicana. Ai meu Deus! O que é que se há de fazer a este povo português?
Depois a minha avó e os filhos tiveram que fugir para Espanha.

J - Participaram também nas incursões monárquicas com Paiva Couceiro?

EEQC - Sim, exactamente. Por acaso o Vasco Pulido Valente refere-os no livro que escreveu recentemente sobre o Couceiro. Participaram na entrada por Chaves, sempre com a ideia de restaurar a monarquia. A minha avó que ficou em Vigo estava aflitíssima… Lá vinham notícias «os Eças ainda estão bem!». Bem, aquilo durou pouco tempo, não havia dúvida nenhuma que a república já estava implantada, não havia nada a fazer. Acabaram por voltar para a sua pátria, para Portugal, e o meu pai e a minha mãe que já tinham dois filhos foram-se instalar na Granja e aí nasceu a minha irmã mais velha. A vida regularizou-se e o meu pai empregou-se no Banco Inglês. Depois nasci eu e a minha irmã mais nova. Eu tinha uma loucura pelo meu pai, tão simpático, tão esperto, tão decidido.
Acontece que a minha avó tinha uma propriedade no Alentejo e era preciso ir lá falar com o caseiro e como a minha avó já não estava para andar pelo país fora por esses caminhos-de-ferro, foi o meu pai. Era Agosto, estava imenso calor e o meu pai bebeu água de um poço. Disseram-lhe para não beber, mas ele bebeu. Quando chegou a casa já estava doente com febre tifóide: morreu daí a três semanas.

J - E os outros filhos de Eça?

EEQC - O mais novo de todos - Alberto - foi para o Brasil. Era uma pessoa muito metida consigo, um bocado estranho, não estudou… O meu outro tio - António - casou com uma senhora de Leiria chamada Maria Cristina. De tantas que ele lhe fez (ele era todo simpático, todo mundano) que eles acabaram por se separar. Nessa altura não era moda divorciar-se, de maneira que eles ficaram só separados.

J - Não tiveram filhos?

EEQC - Não tiveram filhos. O meu tio foi para Lisboa e já se começava a ser pró-Salazar, já começava a haver um movimento de paz. Antes da revolução do Gomes da Costa era tudo revoluções de quinze em quinze dias.
Quando começaram as coisas a serenar e o Salazar a ter mão no país, uma das coisas que formou foi o secretariado de propaganda nacional. Era a propaganda de todo o país e foi algo de muito válido, muito bom. Havia o António Ferro que era o presidente, e ele (o meu Tio António) era vice-presidente. E aí seguiu a sua vida em Lisboa.

J - António Eça de Queiroz não foi director da Emissora Nacional?

EEQC - Foi, depois de estar na propaganda nacional.

J - Viveu com a sua avó na casa da Granja?

EEQC - A minha avó (viúva do Eça) foi viver com os meus pais na Granja. Por isso é que eu a conheci muito bem, a minha avó foi para lá antes mesmo de eu nascer e morreu em 1934, de maneira que ainda esteve 34 anos viúva. Fomos nascendo, fomos crescendo e éramos cinco quando o meu pai morreu.
J - Onde vivia na altura a sua tia Maria?

EEQC - A minha tia Maria vivia numa quinta que hoje em dia é a Fundação Eça de Queiroz. Era uma casa amorosa, muito velha, a precisar de obras, mas ela meteu-se lá, casou, teve dois filhos (um rapaz e uma rapariga), a rapariga morreu muito pequenina e ficou só o rapaz, meu primo. A minha avó de vez em quando ia lá estar uns quinze dias com ela, mas depois voltava porque era incómodo. A casa estava muito depauperada e a minha tia lá ia arrumando o que podia.
A minha avó era uma pessoa muito alta, com uma linda figura, um cabelo que eu sempre conheci já branco, completamente branco. Podemos dizer que era uma senhora triste, quer dizer, ela sofreu horrores com a morte do marido, mas foi com a morte do filho (o meu pai) que se foi abaixo. Era triste, mas vinha e estava à mesa connosco e conversava, mas a gente sentia que tinha havido uma tragédia na vida dela. Muito simpática connosco, estava-nos sempre a fazer camisolas de tricô e bibes que precisávamos nessa altura. Até que eu fui para um colégio interno, tenho impressão que hoje em dia que é raro ir-se para colégios internos. Fui péssima aluna, era uma preguiçosa.

J - Como é que se chamava o colégio interno em que esteve?

EEQC - Chamava-se Colégio de Santo Agrielo da Congregação de São José de Cluny, que dentro da quantidade de ordens de freiras que se dedica ao ensino é uma das mais conhecidas. A minha avó sabia Francês como uma francesa e todas as manhãs chamava-nos para o quarto dela, sentava-nos na cama e ensinava-nos francês «plafond, tapis, le lit»… e nós pouco a pouco fomos entrando no francês. Quando cheguei ao colégio a freira que era francesa e que ensinava francês ficava muito espantada comigo porque eu aprendia muito rápido (eu já sabia tudo…). O resto foi um desastre.
Fui com a minha irmã mais velha, Mariazinha, que era óptima aluna, esperta, estudava lindamente. Havia alturas em que tínhamos de ficar em silêncio e a minha irmã falava todo o tempo e era castigada. No entanto, a minha irmã em casa era muito calada e eu lembro-me da minha avó ter-lhe escrito um bilhete em que dizia assim: «Mariazinha gostei muito das suas notas e ainda mais do sete a silêncio porque agora vejo que já fala.» As freiras ao ler aquilo ficavam furiosas com a minha avó.

J - O que é que a sua avó dizia da preguiça que tinha para estudar?

EEQC - Oh, a minha avó nem tinha coragem para dizer nada. «Ai, Emilinha, veja se faz um esforço». «Está bem avó, vou fazer um esforço». Eu não fazia esforço nenhum. A minha avó era muito boa no sentido em que pensava muito nos outros. Havia na Granja rapariguitas de treze, catorze, quinze anos que andavam por ali sem fazer nada, a minha avó alugou uma casa pequena e convidou as raparigas para irem para lá onde as ensinou a costurar. Saíram dali óptimas costureiras. Na Granja sempre houve óptimas costureiras por causa da minha avó. O meu vestido de casamento foi feito por elas. Até raparigas do Porto iam lá a essas costureiras.
Em Paris o Eça foi grande amigo do conde de Sousa Rosa que veio a ser embaixador na Alemanha aonde teve uma aventura com uma senhora que nunca se soube quem era. Dessa aventura nasceu uma criança. Não sei como é que as coisas se passaram, mas ele ficou com a filha. E como era muito difícil educá-la sozinho e com as funções diplomáticas que tinha, a minha avó disse-lhe: «traga-a para cá que eu educo-a com os meus filhos». E educou, a pequena e os meus tios ficaram como irmãos. Chamava-se Marie Thérèze e eu ainda a conheci em Paris.

J - E a sua casa na Granja?

EEQC - A casa era do avô da Sophia de Mello Breyner que a alugava, até que a certa altura os senhores que estavam lá saíram, a casa ficou devoluta e o meu pai e a minha mãe foram vê-la, gostaram imenso, alugaram-na e um ano depois compraram-na. A própria Granja era nessa altura uma maravilha, a gente na Granja sentia-se como numa quinta de família porque vinha no verão muita gente do Porto, de Cascais, de Lisboa, do Estoril… Era um grupo enorme, conhecíamo-nos desde pequenos. Eram passeios de bicicleta, eram passeios de burro, piqueniques nos pinhais… Quando eu tinha catorze ou quinze anos o mar era bravíssimo e perigoso, mas tomávamos sempre banho. Depois fez-se a piscina, foi uma grande melhoria, as pessoas podiam tomar banho à vontade, mergulhar. A Granja é um sítio que eu nunca posso esquecer…! Tive uma infância e uma juventude maravilhosas.

J - Sophia de Mello Breyner também passava os verões na Granja?

EEQC - Sim, passava, há até uma célebre quadrazinha que eu não sou capaz de dizer toda de cor, «Casa branca junto ao mar…», que é sobre a casa onde ela vinha passar o verão na Granja.

J - Eram amigas?

EEQC - O mais possível! Principalmente a minha irmã Mariazinha, davam-se muito bem. A Sophia era especial: aos doze, treze anos já fazia versos lindos e andava sempre com as suas ideias mirabolantes, românticas. Eu era uma Maria-rapaz.

J - Tratavam-na por Sophia?

EEQC - Não. Tratávamos por Xixa. Também nos dávamos muito bem com os irmãos dela, o mais velho chamava-se Joni. Havia outro a seguir a ela que se chamava Tomás e um que morreu aqui há uns meses que se chamava Gustavo.


J - Até se casar viveu sempre com a sua avó e a sua mãe na Granja, onde estavam nessa altura os manuscritos, os móveis, os livros de Eça?

EEQC - Na casa da Granja, como a nossa avó vivia connosco, trouxe as suas coisas de maneira que havia muitas coisas do Eça com as quais nós sempre vivemos. Havia um baú de ferro escuro onde estavam todos os manuscritos do Eça. Esse baú estava debaixo da secretária onde o meu avô escrevia. Sabe, na altura não se faziam as coisas com tanto rigor, quer dizer, o Eça fazia um sucesso doido, mas a minha avó achava aquilo natural, eram textos que o marido escrevera. Mas estavam ali e ninguém lhes mexia, tínhamos um respeito completo.

J - Cresceu com tudo o que hoje está na Fundação Eça de Queiroz?

EEQC - Sim, na Granja. Algumas das coisas já nesta casa. A masseira dada ao Eça pelo Ramalho Ortigão esteve ainda nesta casa.

J - E a cabaia chinesa onde estava?

EEQC - Esteve na casa da Granja muito arranjadinha, dobrada de maneira a não criar vincos dentro de um armário até á morte da minha avó, depois foi para Santa Cruz (actual Tormes - Fundação Eça de Queiroz -).

J - Diz que havia muita naturalidade com os manuscritos de Eça, mas a sua avó nunca falava do seu casamento com Eça?

EEQC - Não falava muito. É curioso, não falava nem dele nem do meu pai que eram os grandes desgostos que ela tinha. Tinha um amor especial, uma ternura especial, pelo meu segundo irmão (Mané). Havia uma placa redonda e alta de oiro com um retrato do avô e ela tinha aquilo sempre ao pé dela na mesinha de cabeceira, antes de morrer pediu para lha darem.

J - Depois da morte de Eça qual foi o relacionamento dos amigos com a viúva e a família?

EEQC - Com alguns um grande relacionamento. O Ramalho Ortigão ficou sempre amigo e até foi ele que publicou, por exemplo, o livro A Cidade e as Serras que ainda não tinha sido publicado. O Luís de Magalhães ficou sempre amicíssimo, todos os anos ia à Granja com a mulher e as filhas a nossa casa. O Alberto de Oliveira que também conheceu o Eça, ia sempre visitar a avó. De qualquer forma a minha avó retirou-se um bocado.

J - Muito obrigado por ter partilhado as suas memórias connosco!





(Da esquerda para a direita: Alterto; António; José Maria; Maria; Emília Eça de Queiroz)



LEGENDAS:

[1] Quinta de Santo Ovídio, quadro que actualmente pertence ao Museu Soares dos Reis, no Porto.
[2] Pais de Emília Eça de Queiroz Cabral: Matilde de Castro e José Maria Eça de Queiroz (primogénito de Eça).
[3] Emília Eça de Queiroz Cabral
[4] Casa da Granja
[5] Fotografia tirada por José Tomás Costa durante a entrevista (esquerda para a direita): António Sousa Leite, Afonso Reis Cabral e Emília Eça de Queiroz Cabral.
[6] Escrivaninha de Eça de Queiroz, actualmente na Fundação Eça de Queiroz.
Publicado por Afonso Reis Cabral às 00:01
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Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006

OTA e afins...


Pois já começa...!



" O abade gostava do progresso... Achava até necessário o progresso. Mas parecia-lhe que se queria fazer tudo à lufa-lufa... O País não estava para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas...
- E economia! - disse o Vilaça, puxando para si os pimentões."
In Os Maias





Publicado por Afonso Reis Cabral às 19:29
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JÁ COMEÇA...


OTA vai ficar mais cara do que se previa...


Publicado por José Tomás Costa às 19:11
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

«Sentimentaloidismo praticante»

(Ilações tiradas de uma fútil conversa de autocarro.)

Grassa por aí uma doença que ataca a inteligência e a individualidade! Não tenhamos dúvida alguma. Não tem nome, mas pode ser livremente apelidada de «sentimentaloidismo praticante». Este mal é extremamente infeccioso e passa de geração em geração pela influência arguta da sociedade do politicamente correcto. Esta doença infecciosa vem talvez dar razão ao mito do bom selvagem pois adultera de uma maneira extraordinária as pessoas que estão em contacto com ela via sociedade.
Como em todas as doenças existem pessoas com maior protecção, outras que por já terem sido vacinadas estão totalmente imunes, outras com uma incrível imunodeficiência, outras ainda que aceitam o mal e que ainda fazem o serviço de o espalhar…
Esta doença ataca directamente o cérebro inutilizando a capacidade de sequer identificar o mal de que se padece. A partir do momento em que o indivíduo é infectado, passa a reagir segundo determinados padrões sociais neutros em que a sua opinião coincide na íntegra com as dos outros. Este é um bom factor de identificação do padecimento: esbatimento das opiniões pessoais em detrimento de um código pré-estabelecido de fúteis reacções não controladas de amor-ódio consoante determinadas situações.

Dez sintomas e clássicos manifestados em convívio social:

1- Tratar gatos e cães como se fossem bebés reproduzindo todos os sons característicos. (Ó bilu bilu! Ah, que liiinnndo! Pim pim pim, tá tá, pupu…)
2- Por mais terrível que seja o zumbido, nenhuma mosca pode ser morta pois todos os animais têm sentimentos;
3- Testes de fármacos em animais não podem ser perpetrados em nenhuma situação, que se façam antes em humanos;
4- Medo repentino ao bater de asas de uma pomba, a um peixe num aquário, a um galho caído de uma árvore;
5- Os passarinhos não podem estar em gaiolas porque a prisão é um abismo;
6- Os seres humanos são por natureza maus e há quem não mereça viver;
7- Os fumadores são suicidas;
8- O duche só pode durar cinco minutos e a torneira deve sempre ser fechada enquanto se lavam os dentes;
9- Risadas histéricas de boca aberta;
10- Todas as anteriores alíneas são defendidas com a maior força e convicção que um ser humano é capaz;
(A doença está constante a ganhar novas nuances, estas foram as dez principais alíneas que consegui dissecar da tal conversa de autocarro.)

Se estes sintomas se manifestam em sociedade o mais provável é a pessoa estar já irremediavelmente doente, existe, no entanto, uma prova dos nove. (Só a pessoa infectada é que pode, com esforço, fazer o diagnóstico final.)

Prova dos nove:

a) Os anteriores comportamentos são imediatamente postos de parte quando o indivíduo se encontra só.
b) Total vacuidade de opiniões próprias que possam ser expressadas em sociedade.

O «sentimentaloidismo praticante» toma também forma em crenças e superstições.
CURA: Só uma boa dose de opiniões não politicamente correctas com fundamento. Ter lido este post pode já ter ajudado.
Publicado por Afonso Reis Cabral às 20:53
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Aborto, uma perspectiva (II): O aborto clandestino, um argumento falacioso

Soube pelo Blogue do Não que hoje, num programa da TVI apresentado por um sujeito chamado Goucha,- não digo isto ironicamente, apenas não sei o nome próprio do homem,- foi entrevistado um senhor cuja mulher havia morrido há oito anos devido a um aborto clandestino. Segundo o mesmo post, escrito pelo Rui Castro, a quem faço a devida vénia pelo trabalho que tem feito nesse blog, o tal Goucha aproveitou-se da situação para fazer campanha pelo SIM, enquanto que o senhor que fora entrevistado mostrava o seu sofrimento pelo que havia sucedido.


Não sei o que disse exactamente o tal apresentador de televisão e por isso não vou comentar a situação, mas faço as seguintes observações sobre o tão usado argumento dos abortos clandestinos e das consequências que eles acarretam:


Dizer que o aborto, se realizado em estabelecimento legalmente autorizado não trará tantos riscos como um aborto clandestino, é completamente falso! Ora vejamos:



  • O aborto de per si é um ataque à saúde da mulher que o faz:





  • "Poucos riscos em obstetrícia são tão certos como aqueles a que a grávida se expõe quando aborta após a décima quarta semana de gravidez." (Cf. Duenhoelter & Grant, "Complications Following Prostaglandin F-2A Induced Midtrimester Abortion," Amer. Jour. OB/GYN, vol. 46, no. 3, Sept. 1975, pp. 247-250);



  • "Uma das razões que mais frequentemente levam as mulheres à urgência de ginecologia, são abortos feitos em clínicas de aborto legais." (Cf. L. Iffy, "Second Trimester Abortions," JAMA, vol. 249, no. 5, Feb. 4, 1983, p. 588.);





  • Além disto, um estudo recente afirma que há sérios riscos de o aborto provocar cancro da mama; nos EUA morrem 10 000 mulheres por ano com cancro provocado por um aborto. Temos, portanto, consequências físicas: hemorragias, infecções, gravidez ectópica quando não assistida, esterilidade e infertilidade; e ainda consequências psicológicas, terríveis e medonhas, que afectam a mulher, o pai e a família. Tanto a nivel físico com psicológico, o aborto, em qualquer uma das situações, traz consequências horríveis.




  • Dizer que o aborto clandestino é feito sem condições de higiene e por pessoal incompetente é, também, algo por provar. Quais são os dados que apoiam esta afirmação? Como sabem as qualificações dos que fazem os abortos a essas mulheres? Como é possível afirmar coisas dessas, se nem sequer se sabe o número de abortos clandestinos em Portugal? Não existem estudos que forneçam dados para suportar tal afirmação. Fazer crer que, legalizando o aborto até às dez semanas, este passa a ser feito por pessoal competente e com as condições necessárias é mentir descaradamente, visto que não se sabe como, por quem e em que circunstâncias são feitos os abortos clantestinos em Portugal.



    «As mulheres sofrem e morrem em abortos legais em parte porque o aborto é inerentemente perigoso, é um ataque violento, e em parte porque as pessoas que se dedicam a fazer abortos podem ser tão perigosos para a saúde das mulheres como alguns dos infames abortadores de vão-de-escada».(Cf. Aborted Women: Silent No More, David Reardon, Chicago, Loyola University Press, 1987.).





  • Aquela outra afirmação, tão badalada, de que a despenalização do aborto é uma forma de acabar com o aborto clandestino é também problemática: não é razoável que um acto mau, como o de roubar, passe a ser legal só porque não se consegue que acabem os roubos em Portugal. Já toda a gente disse que o aborto é mau, que não é desejável para nenhuma mulher, mas como existem abortos clandestinos - quantos, não sabemos! - vamos legalizar. Porque não aprovar medidas de apoio à natalidade, à família? Porque não apoiar essas mulheres para que elas não tenham de recorrer ao aborto?




  • Além disso não existe nenhum país com uma lei que permita o aborto, em que o aborto clandestino tenha acabado. Na Índia, por exemplo, onde o aborto é legal há 25 anos, por cada aborto legal são feitos dez abortos clandestinos. Existem diversos estudos que provam que o mesmo que acontece na Índia, se verifica noutros países, como Inglaterra, Japão, Hungria e EUA. (Inglaterra: Brit. Med. Jour., May 1970, 1972, e Lancet, Mar. 1968; Japão: Asahi Jour., Oct. 16, 1966; Hungria: International Jour. of OB/GYN, May 1971; EUA: Amer. Jour. of Public Health, No. 1967. )




  • Tambem é mentira, segundo vários estudos, que, após a legalização do aborto, só aborta quem abortaria clandestinamente. Por exemplo: nos Estados Unidos, um estudo verificou que 72% das mulheres interrogadas afirmam que, se o aborto fosse ilegal não o fariam; 24% das interrogadas tinham dúvidas se o fariam e apenas 4% afirmam que fariam o aborto, mesmo que a prática fosse ilegal. (Cf. Aborted Women: Silent No More, David Reardon, Chicago, Loyola University Press, 1987.)




Tenho, portanto, várias razões para afirmar que este argumento, muito utilizado pelos pró-aborto, é, sem dúvida alguma, falacioso. Não tem qualquer ponta de veracidade e é um sofisma, pois quem o afirma sabe do que fala e os que lhes dão ouvidos não querem realmemente saber.

Publicado por José Tomás Costa às 22:56
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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
in A subject of scandal and concern

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