Domingo, 22 de Outubro de 2006

Tauromaquia


A verdade é que as touradas são um espectáculo intenso de violência e sangue.
No entanto, independentemente disto, as touradas fazem parte da identidade de Portugal e Espanha, estão marcadas na história e na vida das pessoas desses dois países.
Tenho consciência da génese da tourada e, mesmo assim, não consigo deixar de gostar de quase tudo que envolve ritual da tauromaquia: a trombeta lá ao longe, o touro enfurecido, a figura esguia do toureiro, aparentemente impotente perante o animal, o cavalo numa dança sincopada e aflita e, por fim, a pega dos forcados, desprotegidos perante a massa de 600 quilos do enorme animal.
Isto faz parte da nacionalidade portuguesa.
Até que ponto é legítimo proibir as touradas, moldando assim sociedades distintas numa massa supostamente civilizada e sem personalidade?

Porém o facto de ser tradição não quer dizer que não seja um espectáculo que fira sensibilidades e que, no fim, mate touros.
No entanto, num mundo tão global, penso ser importante preservar as singularidades dos diversos países e não transformar as diferentes sociedades numa massa informe e impessoal.

Digo: não me importo que morram touros para que eu e muitos outros (muitos!) continuem a ter a sua identidade enquanto nação e o seu belo espectáculo de tauromaquia.
Ao dizer isto não me sinto diminuído, menos culto ou menos civilizado. Não é o gostar-se ou não de touradas que delimita a pouca ou muita civilidade e cultura de alguém.
Muitas das pessoas que dizem que as touradas são pouco civilizadas dizem-no só por acharem que o devem dizer e porque, ao dizerem-no, se sentem mais civilizadas.
Eu gosto de touradas e isso não faz de mim uma má pessoa, uma pessoa menos civilizada ou menos culta.

Publicado por Afonso Reis Cabral às 15:45
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3 comentários:
De José Duval a 23 de Outubro de 2006 às 16:56
Caro Nuno,
Gosto muito de touradas.
Das de morte.
Da fiesta.
Já disse em anterior comentário que a tourada portuguesa foi ferida de morte quando as proibiram que fossem de morte. As de Barrancos não contam, não são muito diferentes da matança do porco em Trás-os-montes, pelo baixo nível dos touros, dos toureiros, dos organizadores, da arena e (recentemente) de toda a politica rasca que a envolveu.
No anterior comentário dei alguns exemplos do que considero poder ajudar a diferenciar o conceito de civilização do de cultura.
A transcrição de um belíssimo poema de Frederico Garcia Lorca foi apenas exemplificativo de que a sensibilidade (neste caso na sua expressão poética) não é exclusiva de quem é contra as touradas e não para deduzir qualquer tipo de balanço de mortalidade.
O touro bravo sofre?
Quem o diz?
O touro bravo é um animal de 500 a 600 quilos de peso que durante 4 a 5 anos viveu a melhor das vidas, totalmente livre e sem ter que trabalhar um minuto em toda a sua existência para comer tudo o que queria. Pode-se portanto dizer que levou uma rica vida. Teve uma vida feliz.
Mas sofre com 5 ou 6 bandarilhas cravadas no sua monumental e sanguínea massa muscular do cachaço?
Deita muito sangue?
E depois?
É por causa da dor que o touro reage e investe ou pela sua bravura e selvajaria?
Claro que é por estas duas características e a prova é que ataca mal entra na arena e antes de ter sido minimamente picado.
É morto com a espada ou o estoque?
Desde sempre em todos os matadouros os touros, bois, ovelhas e porcos foram mortos com um estoque ou uma faca.
Modernamente são electrocutados.
Concluo portanto que os touros não sofrem nas touradas. Reagem com mais ou menos bravura a um homem feito raio de luz que dança à sua frente uma dança de morte. E este homem é o homem primitivo; é o homem puro; é o homem heróico.
Penso sim que o que está em causa nas pessoas que são contra as touradas é uma manifestação de antropocentrismo. Isto é, uma estranha transferência de sentimentos (para não dizer sentimentalismos) homem versus animal. Este e outros desvios acontecem quando o homem se considera a medida de todas as coisas.
Mas, para além disto tudo, o cerne da questão está em que o homem telúrico está a dar origem ao homem urbanodecadente. E este perdeu o sentido sacrificial que, obviamente, está na origem da tourada. Não só na sua vertente sagrada, mas também na profana. É auto-suficiente na sua pequenez e acha que não precisa de se purificar. Dispensa a catarse e fica, não com mais sentimentos, mas sentimentaloide.
Aliás, não foi só este sentido (e capacidades) que perdeu, perdeu muitos mais, se não todos. Por exemplo: o de se orientar pelas estrelas; o de meter as mãos na terra para colher as batatas e as couves; o de saber cortar o pescoço a um frango para fazer arroz de cabidela; o de distinguir o vento norte do vento leste; o de saber velejar. E com todas estas perdas, e muitas outras mais, está a perder o sentido da vida e o de a dar por uma causa superior.
Gosto muito de touradas.
Das de morte.
De José Duval a 23 de Outubro de 2006 às 08:28
Olá Sérgio Real,
Se concorda que o Afonso não é pior pessoa por gostar de touradas mas sim menos culto, temos então de saber o que é ser-se culto. Claro que é um conceito de definição difícil. Por vezes é mais fácil definir-se alguma coisa por aquilo que ela não é do que por aquilo que ela é. Neste sentido e apenas com 16 exemplos tentei definir cultura por aquilo que ela não é no meu comentário ao comentário do Nuno no primeiro post sobre este assunto.Já leu?
De Sérgio Real a 22 de Outubro de 2006 às 23:56
Ora boa noite Afonso.-Sem querer deixar de dizer que gosto bastante do blog- comento o facto de dizeres na conclusao deste mesmo "post" que gostar de touradas n faz de ti pior pessoa ou menos culta.Discordo.Em relaçao ao menos culta pelo menos.Sabendo uma pessoa tudo o que uma tourada envolve-julgando agora que sabes-continuar a ser fã de tal brutal "espectáculo",está-se a insultar a si mesma.Tourada,literalmente é um jogo com o proposito de entreter tais bobos com o sofrimento,tortura e matança de um animal-do qual se fosse necessitada carne«o que não é»poderia mt bem ser morto sem ser atormentado a nosso bel-prazer-que é submetido a perda de uma grande parte da sua gordura e resistência enqanto enclausurado dentro de uma pequena caixa de transporte,e depois desprotegido,enfraquecido,em pura desvantagem,é provocado,atiçado e morto friamente ás mãos daqueles,que por tanta malícia fazerem isso deliberadamente,de tal destino são merecedores.

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