Domingo, 13 de Maio de 2007

O Corpo Humano como nunca o viu

Estranho que, pelo menos na blogosfera, ainda ninguém tenha falado da exposição “O corpo humano como nunca o viu”, localizada no Palácio dos Condes do Restelo. Depois de muita polémica, os cadáveres chegam a Portugal mal vestidos para a ocasião: não trazem casacos de pinho nem sobretudos de terra.
Tudo isto fede, se me faço entender.
Esta exposição tem o intuito de ensinar como funciona o corpo humano, seguindo o princípio de “ver é saber”. Pretende também ser arte.
Ora, contestando estes dois pilares sobre os quais assentam os princípios da exposição, facilmente descobrimos o seu verdadeiro propósito.
“Entende-se por «arte» o fabrico consciente da beleza: «fabrico», porque supõe inspiração e criação, sendo o primeiro momento a iluminação do artista e o segundo o trabalho artístico da técnica.”* Sabendo isto, posso dizer com toda a confiança que não existe arte na natureza. Por mais belo que o canto de um canário seja, esse canto é consequência da sua condição, nunca produto da “iluminação do artista”… Enfim, os exemplos são muitos. O corpo humano faz parte da natureza e por isso não é arte, embora a forma como é utilizado (em vida…) possa ser artística. Nunca a forma como é utilizado quando morto. A carne humana não é barro de criação artística. Não é um qualquer material que se molde e esteja ao serviço de um «fabrico» que supõe inspiração e criação. Neste caso, a pessoa mórbida que trabalhou o material limitou-se a escalpar e desventrar, partir a deslocar. O produto final é um corpo humano horrivelmente deformado, sem feições de pessoa-que-viveu. (Talvez o escalpar tenha um propósito inerente e não é o de dar largas à “arte”, é o de esconder do público a mais pura identificação do ser humano enquanto indivíduo: o rosto e as suas expressões.) Por tudo isto, pode-se concluir perfeitamente que a profanação de cadáver não é arte, ou é?
O segundo propósito assenta igualmente sobre pés de barro. De facto, “ver” não é “saber”. Estudar o que se vê, isso sim, leva ao saber. Há uma grande diferença. Desde quando é que se aprende alguma coisa a olhar para um corpo que empunha num braço, como que vitorioso, a sua pele? Desde quando é que se aprende com uma mulher estendida num leito de suposta maternidade, só que com a barrica aberta e o bebé, enroladinho, morto, a ver-se? Aprende-se que o maior órgão do corpo humano é a pele, ou que, mais para o fim da gestação, o bebé se vira para baixo ansiando dizer olá ao mundo? Não, não se aprende. Vê-se, acha-se ou não graça ao gesto largo que o corpo faz empunhando a sua pele, acha-se ou não graça à posição da mulher já de si enrolada sobre o corpo morto do seu filho por nascer, enroladinho na sua inocência.
Nada mais.
Resta ainda saber de onde vêem os corpos humanos, se a profanação foi consentida, se (passe a ironia) os cadáveres estão ali de livre vontade. A resposta é não. Vindos directamente da china, negociados como mercadoria, estes corpos provêem (diz-se) de presos ou fuzilados. De uma maneira ou de outra, tem-se a certeza de que a sua utilização post mortem nunca foi consentida.
Percorridos todos estes pontos essenciais, chega-se à verdadeira génese da questão. Estes corpos foram incomodados no seu descanso eterno, trabalhados os seus músculos e veias, arrancadas as suas feições, destruídas as suas compleições, unicamente para fins comerciais. Esta é uma ganância com a qual não posso compactuar. Não compactuo com a hipocrisia de quem transforma corpos humanos, dignos de todo o respeito, em “espécimes” para fins comerciais, evocando o ensino e a arte.
Tudo isto fede, como já disse.
Espera-se então que, mais cedo ou mais tarde, estes corpos sejam vestidos a rigor para a ocasião. Sugiro um casaco de pinho e um sobretudo de terra.

* In Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume II, pág. 1365

Publicado por Afonso Reis Cabral às 11:37
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2 comentários:
De Afonso Reis Cabral a 16 de Maio de 2007 às 23:19
Obrigado pelo elogio!
De Anónimo a 16 de Maio de 2007 às 22:50
Opinião qualquer um a tem...
Mas este local é sem dúvida rico em conhecimento, lá isso lá..que me perdoem as más linguas.

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John Osborne
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