Sábado, 27 de Janeiro de 2007

O medo I

É o medo que nos tolhe e, directa e indirectamente, nos inibe de expandirmos a nossa potência de vida, e mesmo a nossa vontade de viver. De certo modo, pode perguntar-se se a própria não-inscrição, toda essa actividade saltitante do «toca e foge», esse constante desassossego dos portugueses, não provém do medo. Porque este arranca o indivíduo ao seu solo, desapropria-o do seu território e do seu espaço, deixa-o sobrevoar o real, em pleno nevoeiro.

José Gil, in Portugal, Hoje o medo de existir


Não sei se é o “medo que nos tolhe” e nos “inibe”, no entanto a verdade é que o povo português tem em si, como que inerente, uma atitude de “encolhimento” perante a perspectiva de um futuro menos favorecedor, uma “atitude negativa”.
Nessa atitude negativa cabe, naturalmente, o medo que é um dos ingredientes essenciais no bolo geral, mas não o único: quando só, o medo a pouco sabe.
É certo: ele existe. O medo é inerente à condição humana e por isso está presente em toda e qualquer sociedade, desde as mais primitivas no coração da amazónia virgem, até às mais evoluídas no coração pulsante de Washington. Penso, logo existo, dizia Descartes. Existe outro entimema possível que julgo sintetizar muito bem a ideia essencial: Penso, logo temo.
Há no entanto sociedades onde o temor é ampliado, muito provavelmente devido a todos os outros ingredientes que formam a sua mentalidade. É esse o caso português.
O medo, por si só, não basta. Nesse caso, o medo seria suplantado por todos os outros ingredientes da mentalidade colectiva, mirraria.
Portugal sofre de um enorme spleen, reflexo de um passado histórico glorioso agora perdido, mas também de uma auto-comiseração sem sentido que me parece ser quase transcendente e que esteve presente em todas as épocas da nossa nacionalidade. É ela, juntamente com o medo que lhe é inerente, “que nos inibe de expandirmos a nossa potência de vida”.

Publicado por Afonso Reis Cabral às 10:46
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