Segunda-feira, 19 de Março de 2007

Visita do Primeiro-ministro

Hoje o Primeiro-ministro visitou o meu local de trabalho.
De manhã, pelas 8:30, já meia dúzia de polícias marcava presença à porta da Escola Secundária Rodrigues de Freitas (ex-Liceu D.Manuel II), onde tenho aulas. Professoras (a E.S. Rodrigues de Freitas é um matriarcado dirigido por mulheres de fibra) corriam de um lado para o outro, a passos curtos mas rápidos. Duas dúzias de homens encasacados, que eu nunca tinha visto, pareciam estar ali única e exclusivamente para mostrar as gravatas, cada uma de cor mais berrante do que a outra.
A visita estava marcada para as 10:30. Não sei a que horas é que o Primeiro-ministro chegou acompanhado pela Ministra da Educação e por Rui Rio, Presidente da Câmara do Porto, pois fui obrigado por um funcionário pequeno e antipático (daqueles que exerce os seus pequenos poderes, ou seja, daqueles que são ditadores em potência) a regressar à minha sala.

(Um pequeno à parte: Na entrada iam-se juntando alunos, cada vez mais excitados com a visita «da besta», «do boi», etc. Os jornalistas iam-se também acumulando, cada um com o seu microfone, seguidos por um operador de câmara. Dois ou três alunos foram entrevistados pela Rádio Renascença e, de seguida, correram desenfreados a contar aos outros o que tinham dito e o que não disseram mas que gostavam de ter dito.
Eh pá, vais aparecer no «Você na TV»! Que fixe! Eu preferia mas é o «Praça da Alegria»! Que g’anda filho da p***, como é que conseguiste que a gaja te entrevistasse?! Que merda, o raio da mulher [refere-se a uma professora] já me mandou entrar…
Junte-se a estes diálogos capturados no ar, como que perdidos no momento, um forte sotaque à moda do Porto e pode-se ter talvez uma vaga ideia do ambiente entre os alunos. Muitos deles nem sabiam quem vinha: desde que estivesse ali a televisão, as suas ambições estavam cumpridas.)

Enfim, lá tive que voltar ao meu posto de trabalho. Uma hora e meia depois, impelido pelo meu espírito jornalístico, penetrei nas fileiras da biblioteca, local nobre do liceu. (Agradeço desde já às excelentíssimas professoras M.H.P e A.R.) A Ministra da Educação estava já a discursar. Seguiu-se José Sócrates que conversava amavelmente com Rui Rio.
Na sua alocução, o Primeiro-ministro anunciou o investimento de mil milhões de euros na requalificação das escolas secundárias de todo o país. O programa irá abranger 332 escolas de todo o país, arrancando em Julho nas escolas secundárias Rodrigues de Freitas e Soares dos Reis, no Porto e também em mais duas escolas, na cidade de Lisboa.
Infelizmente já não vou ver os efeitos deste grande investimento, no entanto mais vale tarde do que nunca. O investimento na área da educação é necessário e urgente. Segundo as palavras de Maria de Lurdes Rodrigues: “não se trata apenas de investir mais dinheiro, mas de investir mais e melhor, de acordo com um planeamento exigente de modernização e conservação, respeitador da evolução dos modelos pedagógicos, da autonomia e responsabilidade das escolas, bem como de princípios da racionalidade económica na gestão futura, duradoura e sustentada dos edifícios e dos espaços escolares.”
Sócrates manteve o seu estilo pragmático, tocou em todos os pontos com precisão, pelo menos durante os poucos minutos a que eu pude assistir. É essa mesma contenção e planeamento que fazem transparecer competência e resultados, especialmente depois de três governos repletos de desorganização.
O problema é que não basta ser, é preciso também parecer.
Sócrates parece competente e inspira segurança, mas a verdade é que há muito tempo que nenhum Governo tinha tão boas condições de governação, desde a maioria absoluta até ao pântano da oposição, mais do que nunca enfraquecida pelas selvagens investidas de Portas e infelizes tomadas de posição de Marques Mendes.
Enfim, lá tive que voltar para as aulas, decididamente contente com estas novas medidas. Esperemos que este grande investimento não se esgote só nas palavras.

Publicado por Afonso Reis Cabral às 17:55
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1 comentário:
De António Sousa Leite a 25 de Março de 2007 às 00:31
pena é que, numa escola, 3 milhões de euros sejam uma gota de água e, num país, 332 escolas uma molécula

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