Quarta-feira, 16 de Maio de 2007

"Uma história de Amor e Trevas", Amos Oz

Este livro, história autobiográfica da família de Amos Oz, descreve uma Jerusalém cosmopolita e inadaptada, composta por bairros e quarteirões, cada um com as suas influências próprias. Amo Oz, partindo de pequenos episódios, vai narrando a história contemporânea de Israel.


" Havia entre nós uma lei de ferro segundo a qual não devíamos comprar produtos importados e privilegiar a produção local. Mas, quando íamos à mercearia do senhor Oster, à esquina das ruas Abdias e Amos, tínhamos de escolher entre o queijo Tnuva, fabricado no kibutz, e o queijo árabe: seria o queijo árabe, da aldeia visinha, Lifta, produto externo ou israelita? Era complicado. Há que dizer que o queijo árabe era um nadinha mais barato. Mas, ao comprarmos o queijo árabe, não estaríamos um pouco a trair o sionismo? E se lá ao longe, nalgum kibutz ou moshav, no vale de Jezréel ou nos montes da Galileia, uma pioneira exausta, de lágrimas nos olhos, tivesse embalado aquele queijo hebraico para nós? Era justo virar-lhe as costas e comprar queijo estrangeiro? Teríamos coragem para o fazer? Por outro lado, se boicotássemos os produtos dos nossos vizinhos árabes, estaríamos a avivar e a eternizar o ódio entre os dois povos, e o sangue que, Deus nos livre, viesse a correr, pesaria sobre a nossa consciência. E, para além disso, o fellah árabe, esse humilde trabalhador da terra, simples e honesto, cuja alma ainda não fora corrompida pela imundice das cidades, sim, esse fallah era realmente o irmão mais escuro do simples mujique, de alma nobre, das histórias de Tolstoi! Não era uma crueldade virar as costas ao seu queijo artesanal?
(…)
A discussão entre os clientes da mercearia do senhor Oster era animada: comprar ou não comprar o queijo dos fellah? Por outro lado, «a caridade começa em casa», daí o nosso dever de comprar queijo Tnuva; mas, por outro lado, a Bíblia ordenava «Haverá uma só lei para todos vós e para o estrangeiro que mora entre vós» e por isso convinha comprar de vez em quando o queijo dos nossos vizinhos árabes, «porque vós fostes estrangeiros na terra do Egipto». E, depois, qual não seria o desprezo com que Tolstoi olharia para uma pessoa que comprasse um queijo e não outro apenas por diferenças de nacionalidade ou de raça! E os valores do universalismo? Do humanismo? Da fraternidade de todos os seres criados à imagem de Deus? E, no entanto, que lamentável, degradante e mesquinho seria comprar o queijo árabe só porque era uns cêntimos mais barato do que o dos pioneiros, que sofriam na pele para arrancar o pão da terra com as unhas?
Que vergonha! De uma maneira ou de outra era uma vergonha…
A nossa existência estava cheia de infâmias daquelas. "

Publicado por Afonso Reis Cabral às 08:57
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