Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

De uma janela

Aqui publico um texto de um anónimo que olha de uma janela...

«Passo o dia prostrado no sofá da sala, tendo em frente uma janela até ao chão que dá acesso à varanda e visualmente a nada. Porque a fachada do prédio do outro lado da rua é tão incaracterística, tão caracteristicamente incaracterística que é nada, menos que nada. É nada de nada.

No entanto, ao fim de dez horas começa-se a ver e ouvir alguma coisa, difusamente. Mais ou menos como a pintura do Noronha da Costa.
Nunca vi um canário a cantar tanto e tão mal como o que vive engaiolado no andar em frente à minha casa. É verdadeiramente insuportável! Canta desalmadamente dentro da marquise que triplica o volume da sua miserável voz e enche-me a sala com um ruído de broca de dentista de terceira categoria! Raio de bicho imune à gripe das aves! Felizmente aos melros já se lhes acabou o cio e calaram-se deixando de me acordar às cinco da manhã. Ah se tivesse uma espingarda de pressão de ar! Tirava-lhe o pio só com um chumbinho!

Que pena tive da solidão estática da mulherzinha que espreita por uma nesga de vidro da janela ao lado da marquise do canário. Horas a fio olha tristemente do alto do terceiro andar para o que se passa na rua. Se o estore baixasse mais vinte centímetros já não poderia ver nada. Porque é que não o levanta mais? Porque é que não abre a janela com um calor destes?
Que pena que tive dela, com aquela espécie de xaile a tapar-lhe a cabeça. Com este calor! Deve ser doente. De vez em quando, num movimento brusco a cabeça desaparece, para voltar a aparecer pouco depois.
Realmente, a solidão existe realmente. Fisicamente. Tristemente. Espessamente.
Que pena tive.
Mas eis que num movimento de pássaro, rápido e inesperado, aquela cabeça olha directamente para mim. E um nariz preto na ponta de um focinho, desenha perfeitamente, a cabeça de um cão!
Mas que merda é esta?
E estava eu cheio de pena de uma mulherzinha solitária e afinal era um cão!
Porra para a mulher!
Porra para o cão!
Que civilização bárbara é esta que tem cães em terceiros andares?
Será a mesma que abandona as velhinhas e as passa a chamar idosas? O que é um idoso? É alguém que não tem idade? Haverá alguém sem idade?»

Publicado por Afonso Reis Cabral às 21:22
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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
in A subject of scandal and concern

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