Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Aquilino no Panteão

Chego tarde ao debate, mas com gosto. Agora que o facto está exumado e aconchegado num Panteão entre os grandes, como por exemplo Amália Rodrigues, não há nada a fazer. Aliás, já não há nada a fazer pelo Panteão, no que diz respeito à credibilidade.
Pouco me interessa se Aquilino esteve ou não envolvido na conspiração que levou ao regicídio, interessa-me sim a sua qualidade literária.
Quanto a isso, meus fidalgos, permitam-me dizer com todo o respeito, e sem saricoté, que aquilo acrescenta sensaboria à porca da vida. Lembra-me uma prima velha que tenho e que diz não querer largar os seus ossos no Brasil, coitadita, que não gosta daquelas bandas. Lembra-me um enterro c’as comadres a pregar as malandragens do defunto por entre recitais de ave-marias até que bonda. Lembra-me nomes como Arcangélica, Aruspina, Chichorro, Diamantino, Brízida, Agostinho ou Miguelão da Cabeça da Ponte. Lembra-me tédio de morte. Lembra-me Ai, Jesuses! com entoações várias, cada uma mais de povo. Lembra-me histórias de faca e alguidar, mas a faca é cutelo e o alguidar escudela de barro. Lembra-me que ninguém o lê, e ainda bem.
Aquilino, como diria Almada Negreiros, mas referindo-se a Dantas, “EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!”
Fidalgos, expliquem-me Vossorias porque o foram acoitar dentro do Panteão, que eu não alcanço! Bastava-me o atestado de sensaboria dado pelo Dr. António de Oliveira Salazar, que pelo que entendo gostava muito daquelas prosas aquilinas, para não se instalar o ilustre senhor no Panteão! Bastava-me ler o parágrafo em baixo transcrito para o deixar descansado no seu canto, que já zombaram no Panteão por demais!…

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra – eu cá nunca me avistei com ele – mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

in O Malhadinhas
Publicado por Afonso Reis Cabral às 14:59
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1 comentário:
De Anónimo a 3 de Outubro de 2007 às 10:19
Caro ARC,
Venham daí esses ossos!
Estou de acordo.O gajo devia ter sido comido pelos lobos.Ele e mais os seus livros. O problema é que os lobos não comem enquanto uivam e também não consta que leiam.
No entanto, suspeito que isto de "ir para o Panteão" é mais um castigo do que uma honra. É mais ou menos como "ir para o Inferno".

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"I should find myself degraded if I descended to finding out if my convictions suited every man in the audience before I uttered them."
John Osborne
in A subject of scandal and concern

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