Terça-feira, 1 de Maio de 2007

"Talking CCTV"


Há já algum tempo, implementaram em Inglaterra, nalguns pontos estratégicos, as “talking CCTV”, ou seja, câmaras de vigilância que falam.
Estas câmaras têm o intuito de dar uma reprimenda em público a quem deitar lixo para o chão, ou a quem estiver a praticar uma acção anti-social. (O conceito de “anti-social”, a meu ver, é subjectivo e por isso, em primeiro e último caso, fica ao cuidado do operador de câmara discernir o que é ou não “anti-social”.)
Estas câmaras têm tido um enorme sucesso e por isso o governo inglês vai gastar 500.000 libras em aplicar altifalantes a câmaras já existentes.

Visto que os fins não justificam os meios, o intuito de manter a ordem social não interessa para nada. Interessa, isso sim, analisar a legitimidade dos meios utilizados para alcançar essa ordem social.
Esta técnica de “Big Brother” é, pura e simplesmente, um atentado à liberdade do cidadão inglês. O cidadão pode optar por deitar lixo ao chão, ou mesmo ter comportamentos anti-sociais, por mais imoral que isso possa ser. Têm direito a um “núcleo duro” de intimidade, que já estava em causa com o simples facto de estarem a ser filmados, quanto mais quando a câmara se transforma num meio de coação psicológica gigantesca.
Esse “núcleo duro” acaba, claro está, quando interfere com a liberdade dos outros. No entanto, neste caso, não é isso que se verifica! Atirar lixo para o chão, andar de bicicleta nos passeios, gritar nas ruas, ou praticar qualquer outro tipo de comportamento anti-social desta ordem, está muito longe de interferir com a liberdade dos outros. Para os casos graves, já existe uma instituição: a polícia.
Sinceramente, não percebo como é que a implementação destas câmaras moralistas não foi fortemente contestada. A única explicação é a de uma atitude superior e impositiva de uma suposta maioria perante uma envergonhada minoria. Como alega John Reid: “But the vast majority of people find that their life is more upset by people who make their life a misery in the inner cities because they can't go out and feel safe and secure in a healthy, clean environment because of a minority of people.” Esta afirmação, embora possa espelhar o sentimento geral, não torna válida uma medida abusiva, autoritária e moralista.
E assim caminhamos em linha recta, passo a passo, aos poucos mas firmemente, para uma ditadura do politicamente correcto.

Publicado por Afonso Reis Cabral às 09:57
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5 comentários:
De Anónimo a 2 de Maio de 2007 às 21:11
é muito mau sinal quando é necessário corromper a liberdade com leis e invenções - bem intecionadas quiçá - mas promotoras da desconfiança e da falta de civismo. O ser humano é um ser racional por alguma razão, não vamos cá menosprezá-lo... O politicamente correcto, fora a política, deve ser implementado, nunca legislado.

não barafustemos, não vá a câmara estar à espreita...
Que ataque!

Mariana.S.
De Afonso Reis Cabral a 2 de Maio de 2007 às 15:46
Sim, caro anónimo das 11:44, isto é verdade, por mais inacreditável que pareça!...
De Afonso Reis Cabral a 2 de Maio de 2007 às 15:45
Muito obrigado pelo comentário, António Amaral! É exactamente isso.
Abraço.
De AA a 2 de Maio de 2007 às 12:58
Concordo.

Primeiro atacam-se usos "escandalosos" da liberdade; depois o "socialmente incorrecto" (vulgo "politicamente incorrecto"; e um dia decreta-se politicamente, ou dispensando a política, o que é correcto e o que não é.

Isto pode nunca acontecer. Oxalá. Mas é escusado criar ferramentas que são imorais de princípio, e que podem ser muito mal utilizadas. A sociedade prospera quando a informação está dispersa, não quando a tentam suprimir ou concentrar por decreto.
De Anónimo a 2 de Maio de 2007 às 11:44
Isto é mesmo verdade?

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