Sábado, 9 de Dezembro de 2006

Detestável Mundo Novo

Acabei ontem de ler o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e ainda tenho do estômago subindo para a boca um gosto acre a fel.
Huxley retrata uma sociedade futurista, muitíssimo civilizada, em que a felicidade foi atingida (ou não…?). Uma sociedade onde não existe família, onde os bebés nascem num laboratório super-avançado em que, através de processos químicos, se mirra ou desenvolve mais o feto para que as características físicas dele correspondam à classe social a que vai pertencer, classe essa definida através de hipnopédia (condicionamento através do sono) e lavagens ao cérebro.
Assim, cada um é condicionado durante a juventude para ser feliz dentro do escalão social em que vive, é condicionado para aceitar um determinado número de regras assimiladas como verdades absolutas, de senso comum. A higiene é essencial e, não havendo família, o cidadão é condicionado de maneira a considerar uma obscenidade a palavra «mãe» e um disparate ofensivo a palavra «pai».
A hipnopédia (repetição exaustiva de frases padrão durante o sono), aliada a processos pré-natal elaborados, é o meio ideal para que cada um se sinta feliz dentro da classe social que desempenha. «As crianças Alfas estão vestidas de cinzento. Elas trabalham muito para nós, porque são formidavelmente inteligentes. De facto, estou muito contente por ser uma Beta, pois não trabalho tanto. E, depois, somos muito superiores aos Gamas e aos Deltas. Os gamas são patetas. Estão todos vestidos de verde e as crianças Deltas estão vestidas de caqui. Oh, não, não quero brincar com as crianças Deltas. E os Epsilões são ainda piores. São tão estúpidos que nem sabem…» (Exemplo de frases hipnopedica condicionante.)
Estão assim criadas as bases para uma sociedade adulta que é supostamente feliz, cega, que não tem religião, mas que se dirige ao criador do seu estilo de vida como o grande ser, o Nosso Ford. Esta é uma sociedade que prescindiu da sua entidade mais básica: a família. O consumismo e os prazeres físicos são os bens supremos e os relacionamentos humanos são livres, isto é, se uma pessoa quiser ter relações com a vizinha do lado que não conhece de lado nenhum, tem. Até é mal visto andar só com um parceiro.
Para os momentos em que a felicidade não é tão grande, toma-se uma ou duas gramas de soma e a falta de felicidade passa, para mais sem ressaca no dia seguinte.
Enfim, uma sociedade sem objectivos, sem esforço para se alcançar algo. Uma sociedade consumista, uma sociedade que vive iludida em si mesma, que tomou todo o mundo num só grande Estado paternalista que tudo cuida, uma sociedade que considera a gordura e a velhice como algo de obsceno e por isso se desenvolveram técnicas especiais anti-envelhecimento. Construiu-se uma sociedade em que o cidadão quase nada vale e que, sendo necessário, pode ser eliminado para bem da comunidade.
No meio disto tudo, a cultura e o passado foram abolidos e os espíritos mais iluminados, os que conseguiram contornar o condicionamento, são mandados para uma ilha.
Enfim…! Um Detestável Mundo Novo que vive uma falsa felicidade baseada no consumo de droga, sexo e jogos desportivos variados.

Aconselho a leitura, mas devo avisar que ainda tenho do estômago subindo para a boca um gosto acre a fel.
Publicado por Afonso Reis Cabral às 00:05
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3 comentários:
De AA a 11 de Dezembro de 2006 às 10:36
As recomendações triviais: 1984 (Orwell), Nós (Zamiatine), Anthem (Ayn Rand)...
De Afonso Reis Cabral a 10 de Dezembro de 2006 às 18:32
É verdade, infelizmente já faltou mais...
De Anónimo a 10 de Dezembro de 2006 às 17:28
Já não estamos muito longe desse mundo. já faltou mais, muito mais.

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John Osborne
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