Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

Tocarás tu a campainha?


«No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fabula ou História contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição dum avaro. Tu, que me lês e és homem mortal, tocarás tu a campainha?»
Teodoro somos todos nós e há um momento em que nos é dada a possibilidade de tocar à campainha.
O Mandarim lá no fundo da china, por não se ver, conhecer, sentir ou ouvir, não deixa de ser um ser humano que vive. É este o grande problema moral em O MANDARIM de Eça de Queiroz.
Aqui se pode construir um paralelo íntimo e real com o aborto.
O semblante da criança que cresce no útero da mãe não se conhece, a sua vida não se sente e o seu nome ainda não foi dado. O Mandarim é uma entidade vaga aos olhos de Teodoro, nunca o conheceu e para que todos os problemas que lhe afloram o quotidiano acabem basta que ele toque a campainha.
O bebé, à semelhança do Mandarim, soltará apenas um suspiro inaudível sem nada poder fazer. Ti-li-tim…!
Teodoro duvidava até da existência do Mandarim porque nunca o tinha visto, nunca ninguém lhe provara com factos palpáveis e universais que aquele velho vivia, nunca ninguém lhe mostrara o papagaio que o velho senhor bramia no momento em que tocaram à campainha.
«E agora note: é só agarrar a campainha e fazer ti-li-tim. Eu não sou nenhum bárbaro: compreendo a repugnância dum gentleman em assassinar um contemporâneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é repulsivo o agonizar dum corpo humano. Mas aqui nenhum desses espectáculos torpes…»
Este indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo dum guarda-chuva é o Estado que propõe a Teodoro a possibilidade efectiva de tocar à campainha desde que até às dez semanas.
Teodoro disse sim.
Ah! Então todos os seus problemas pareciam ter acabado! «Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha.»
Sofreu, morreu realmente, se é que era vivo?
«-Pobre Ti-Chin-Fú…!
- Morreu?
- Estava no seu jardim, sossegado, armando, para o lançar ao ar, um papagaio de papel (…). Agora jaz à beira dum arroio cantante, todo vestido de seda amarela, morto, de pança ao ar, na relva verde.»
Esta é a forma mais fácil de acabar aparentemente com todos os problemas, e agora o Mandarim jaz irremediavelmente morto.
Teodoro entrega-se a tempos de deleite, mas pouco tempo depois os remorsos chegam na forma de um terrível fantasma segurando um papagaio de papel. Tudo faz para tentar remediar o que sente, enveredando até numa viagem à China para conhecer a família do velho senhor morto. Tudo em vão. Tenta recorrer ao indivíduo de chapéu alto, mas estava inalteravelmente só e abandonado.
Teodoro não precisou de castigo, nunca foi preso, ninguém nunca o repudiou mas mesmo assim na consciência o peso de uma vida que nunca conheceu dilacera a sua existência. O pior castigo foi o remorso avassalador, corroendo-lhe o peito.
Se nunca tivesse tido a opção de tocar a campainha nunca o teria feito e hoje, algures entre nós, viveria ainda o Mandarim.
O fantasma nunca o abandonou e foi assim que concluiu o relato do seu infortúnio:
«E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do Norte a Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartaria até às ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum Mandarim ficaria vivo se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má da má argila, meu semelhante e meu irmão!»
Publicado por Afonso Reis Cabral às 21:51
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6 comentários:
De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2007 às 15:39
O paralelo com o texto da Brecha das Almas também me ocorreu. Fiz uma pesquisa e encontrei este post, que reconheço como inspirado, embora talvez desnecessariamente pedagógico.

Quero, contudo, fazer notar que n'O Mandarim Teodoro sente apenas as consequências morais do crime que cometeu para adquirir riqueza inimaginável, enquanto no caso do aborto a mulher que aborta tende a sofrer consequências físicas directamente proporcionais à sua pobreza material e, também na directa proporcionalidade da sua pobreza material, não espera riquezas em paga do seu crime mas apenas um não agravamento da miséria.

O que temos à nossa frente não é uma escolha fácil ou que possa suscitar entusiasmos épicos. A regra de ouro não nos diz se havemos de preferir a igualdade ou a vida. A propósito, não aprecio o Eça. É habilidoso, sem dúvida, um artífice da palavra, mas demasiado pronto a julgar.
De Miriam a 15 de Novembro de 2006 às 11:19
Achei o texto interessantíssimo e, com o seu conhecimento, publicá-lo-ei no blog Sou a Favor da Vida, com uma ligação para o seu. Obrigada e parabéns!
De Vítor Costa Lima a 1 de Novembro de 2006 às 11:07
O que é facto é que uma mulher normalmente sente as consequências do aborto que fez, chegando a haver perturbações psíquicas graves.
De Anónimo a 1 de Novembro de 2006 às 09:01
Uma leitura literária, actual e humana...
muito bem!
De Anónimo a 28 de Outubro de 2006 às 17:15
Grande Afonso!
Atravessaste a cultura da morte com a cultura literária!
De Anónimo a 28 de Outubro de 2006 às 14:28
Parbéns Afonso Reis Cabral!
Extraodinário e trágico paralelo!

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